O Centro devia ter uma orquestra sinfónica

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P – Neste que foi, à semelhança de outros, um ano difícil, nomeadamente com a saída de Virgílio Caseiro, maestro e diretor artístico da OCC, que balanço é possível fazer de uma década de atividade?

R – Com 2010 a terminar, a OCC está a assinalar uma década de atividade o que, naturalmente, resulta de todo o trabalho dos últimos anos e está agora concretizado, não apenas na orquestra, mas também noutros projetos que continuam a afirmar a sua vitalidade. É claro que há pessoas com uma importância extraordinária na orquestra, como o maestro Virgílio Caseiro, fundador do projeto, que também como diretor artístico se entregou de corpo e alma a toda a atividade desenvolvida, concertos, conferências, iniciativas de caráter pedagógico, uma entrega que todos conhecem e que é reconhecida nos diversos locais por onde passamos, muito graças à sua grande capacidade de comunicador. É alguém por quem temos uma enorme estima, uma grande consideração e, sobretudo, uma enorme gratidão. Depois de todos estes anos, foi com pena que aceitamos a sua decisão de sair, mas que temos naturalmente de respeitar. Ao longo destes anos houve outras pessoas muito importantes para o projeto, como o próprio presidente da Câmara Municipal de Coimbra [Carlos Encarnação], que agora também nos deixa, mas a quem queremos agradecer todo o apoio. Os projetos são feitos de pessoas e são as pessoas, muitos dos sócios fundadores – entre os quais o atual presidente da câmara [João Paulo Barbosa de Melo] –, que continuam a fazer-nos acreditar no futuro.

P – A OCC é um projeto que se afirmou na cidade?

R – É um projeto que se afirmou e tem hoje uma grande importância para a cidade, mas também para a zona geográfica alargada que é o Centro. Embora a grande luta tenha sido sempre a de que Coimbra tivesse uma orquestra profissional residente. Foi esse o espírito de todos os que, em 2001, quiseram tornar esse sonho realidade.

P – Aliás, neste ano em particular, a orquestra lançou um conjunto de projetos que atestam a sua vitalidade?

R – Exatamente. Como o Coro da OCC, a Orquestra Juvenil do Centro ou o grupo de música tradicional portuguesa Canto de Rua. Sabe, quando se acredita no que se faz, a entrega é grande. Eu penso que o que tem acontecido de bom neste projeto é que as pessoas têm trabalhado, acreditando nele. E isso faz com que as coisas não parem, apesar das inúmeras dificuldades. Mas nós estamos cá para aprender, para fazer melhor e para superar aquilo que é menos bom, com a convicção de fazer sempre mais. E neste campo, não posso deixar de referir também uma pessoa a quem muito devemos, o Professor Linhares Furtado, que nos tem ajudado a cuidar sempre da saúde do projeto. A entrega de todos tem sido enorme, nomeadamente a do maestro Artur Pinho Maria, que agora assumiu a direção artística da OCC, mas que já tinha trabalhado connosco em diversas ocasiões.

P – A influência da OCC alargou-se de Coimbra a muitas outras autarquias do Centro?

R – O objetivo foi sempre esse. Desde o início e de forma consistente, apostamos na celebração de protocolos com um grande conjunto de autarquias de todo o Centro do país. Por exemplo, o último concerto deste Natal foi feito em Penedono. E este foi mais um concerto, porque todos os anos desde 2002 nós nos apresentamos pelo menos uma vez em Penedono. O antepenúltimo concerto que fizemos foi em Vagos, à semelhança do concerto pedagógico que voltámos a fazer no Pavilhão Multidesportos de Coimbra, onde estiveram novamente mais de duas mil pessoas.

P – A vertente pedagógica é uma preocupação de sempre da orquestra?

R – Tem sido uma preocupação e uma prática desde o início do projeto. Porque é fundamental dar a conhecer às pessoas esta música, a música clássica, já que, como em quase tudo, só se gosta o que se conhece. Dar a conhecer – mas também cultivar – a música são as duas grandes tarefas da OCC. Isto, partindo do princípio que cada tipo de música tem o seu espaço, mas é importante que possamos ter uma população culta em termos musicais. Porque também ninguém questiona a importância que tem saber ler Aquilino Ribeiro ou Eça de Queirós. E o facto é que o país só irá desenvolver-se se apostarmos na formação e na cultura.

P – Sente que tem havido alguma evolução nesse sentido, numa maior aceitação da música clássica, que é a base?

R – Hoje é muito mais fácil o nosso trabalho. É muito mais fácil abrir as portas à apresentação da orquestra. E nesse sentido sim. Mas, num projeto como o nosso, profissional, importante mesmo é fazer uma gestão igualmente profissional, porque temos de chegar ao fim do ano com as contas equilibradas, justificando o financiamento da Câmara Municipal de Coimbra, mas também os restantes apoios que nos chegam via mecenato. Depois, temos de convencer os nossos compradores que o nosso produto é bom, é vital para a atividade cultural desta região. E isso é mais fácil fazer hoje em dia, apesar da crise, do que era há uns anos atrás.

P – Também porque há um caminho já feito pela OCC?

R – É um facto, sim. Agora, quando vou às câmaras municipais ou a outras entidades apresentar o projeto já toda a gente conhece a Orquestra Clássica do Centro. Agora já não tenho de apresentar o projeto, tenho apenas que apresentar propostas de trabalho. E claro que é muito mais fácil. E isso percebe-se tanto no trabalho desenvolvido com as câmaras, como com outras entidades como as escolas. Há aqui também uma relação que vai crescendo e que é consequente, porque nós não vamos apresentar apenas um concerto, trabalhamos com as autarquias em projetos diversos, sobretudo de âmbito pedagógico.

P – Essa consequência nos projetos é fundamental?

R – É fundamental. E tem havido da nossa parte, de quem trabalha na direção artística e na gestão do projeto, desculpem-me a imodéstia, uma preocupação em fazer e fazer com êxito, em termos humanos, mas também enquanto colaboração com outras entidades e outras pessoas. E quando se fala de crise e de gestão, isto é muito importante. Quando nós temos de lutar por um projeto, quando temos de criar condições para que subsista e se afirme, sobretudo quando as condições financeiras relativamente a outros projetos que desenvolvem o mesmo trabalho são tão díspares, é verdade que só com muita entrega as coisas se conseguem concretizar.

P – E os financiamentos são díspares relativamente a outras estruturas. E está a falar sobretudo de apoios do Ministério da Cultura relativamente à orquestra regional de Aveiro?

R – A região Centro não tem uma orquestra sinfónica e, no meu entender, poderiam criar-se as condições para ela existir. Como sabe, a nossa orquestra surgiu em 2001, por vontade de várias pessoas, sócios fundadores, que entenderam que uma cidade como Coimbra merecia e devia ter uma orquestra profissional residente. Na altura, surgiu como Orquestra de Câmara de Coimbra, de facto a sua formação era de câmara, e depois, por vontade expressa de Carlos Encarnação, foi aumentada para uma formação clássica, embora nós tenhamos ofertas diversas em termos de formação, em quartetos, quintetos. Até já tivemos uma formação sinfónica, quando fizemos a 9.ª Sinfonia de Beethoven, com a contratação de outros músicos, mas também com a colaboração de outras orquestras como a Brigada de Intervenção. A verdade é que a região Centro não tem uma orquestra sinfónica, quando Lisboa tem várias, o Norte tem, o Porto tem a sua grande orquestra. No Centro há uma orquestra regional, com sede em Aveiro, a Filarmonia das Beiras, com o apoio devido do Ministério da Cultura. Mas não tem uma constituição fixa como tem a OCC e, sobretudo, não tem como nós temos, uma atividade ao longo de todo este tempo, de forma ininterrupta.

P – O que é que defende então? A colaboração entre as duas formações, de Coimbra e Aveiro, para criar uma orquestra sinfónica no Centro?

R – Eu acho absolutamente que devia haver essa colaboração e, sem que qualquer dos projetos perca a sua identidade própria, deviam colaborar num projeto comum, com as condições e os meios de formação orquestral sinfónica.

P – E essa colaboração é possível?

R – Essa colaboração nunca existiu, mas eu continuo a defendê-la. Mesmo porque, há lugar para estes dois projetos no Centro, em Coimbra e em Aveiro. E o tempo deu-nos razão, há lugar para a OCC, em termos de público e em termos de atividade desenvolvida. Mas o apoio que o Ministério da Cultura atribui às orquestras regionais ronda os 550 mil euros/ano. A OCC – que continua sem ter apoio direto do Ministério da Cultura – tem um apoio base de 175 mil euros/ano da CMC, para um orçamento a exceder os 400 mil euros/ano, com a verba restante a ser encontrada, como muita dificuldade, em parcerias e em mecenato.

P – Entende então que há condições para que as duas formações orquestrais do Centro colaborem pontualmente e se encontrem enquanto formação sinfónica, possibilitando um outro serviço cultural à região?

R – Exatamente. Eu, em representação da Associação Orquestra Clássica do Centro, fiz essa proposta ao anterior vereador da Câmara de Aveiro e nunca obtive qualquer resposta. E nós, com muito gosto, quando apresentamos o nosso projeto a autarquias e entidades por esse país fora, apresentaríamos igualmente esta possibilidade de formação sinfónica em conjunto.

P – E o Ministério da Cultura relativamente a esta proposta. Competiria ao organismo governamental de tutela promover este encontro entre as duas orquestras?

R – Nós já o dissemos ao Ministério da Cultura. E, em última análise, o Ministério da Cultura devia assumir essa responsabilidade, naturalmente através da criação de concursos a que as entidades pudessem candidatar-se com um projeto concreto nesse campo. Porque há uma coisa fundamental na vida das cidades, na vida dos países, na vida das populações, é que os projetos sejam apoiados quando têm um trabalho para mostrar, desde logo com a participação das próprias autarquias, uma vez que são elas que estão mais próximas e melhor conseguem avaliar.

P – Mas a OCC continua sem ser apoiada pelo Ministério da cultura – para lá de apoio a projetos pontuais a que se candidata –, facto que tem denunciado em diversas ocasiões?

R – A Orquestra Clássica do Centro já passou por cinco ministros [da Cultura] e o problema têm-se colocado sempre em relação a todos eles. Tem havido algumas reuniões ultimamente, mas as respostas ainda não foram nenhumas. Nós continuaremos a desenvolver o nosso trabalho como o temos feito até agora, com maiores ou menores dificuldades pontuais. Relativamente ao Ministério da Cultura, de quem temos conseguido alguns apoios a projetos pontuais, a nossa pretensão é que seja possível um apoio à estrutura na área da música, porque para um projeto profissional só este tipo de apoio serve. Claro que podemos sempre fazer mais e melhor, mas nós temos a convicção e as provas de que fizemos o melhor com as condições que temos. Portanto, o que nós pedimos é que possa haver um concurso para este tipo de orquestras e que nós possamos candidatar-nos.

P – E isso seria fundamental a diversos níveis?

R – Fundamental. Sobretudo também para criar as condições indispensáveis para que o projeto continue a afirmar-se e possa existir para além das pessoas que lhe estão ligadas. As pessoas são sempre muito importantes, há pessoas fundamentais para este projeto, mas seria bonito que um dia, independentemente de estar a pessoa a, b, c ou d, o projeto tivesse a continuidade assegurada porque, para além de valer por isso, tem condições objetivas, nomeadamente em termos de financiamento, para que assim possa acontecer.

P – Porque o projeto, é notório, conseguiu impor-se na cidade, na região, junto do público. Falta fazê-lo perante o organismo governamental de tutela?

R – Exatamente. E só assim será possível transformar-se num projeto objetivamente sustentado. Ainda assim, partindo do princípio que este é um projeto nosso e assumido assim desde o início, não iremos desistir. No entanto, é necessário criar as condições para que o projeto possa existir por ele próprio. Também porque são cerca de 40 profissionais, entre músicos e outros colaboradores, que fazem e trabalham com a OCC.

P – Essa é a sua grande missão, em 10 anos de trabalho e entrega?

R – É. Entendo que esta é a minha grande missão, que tenho cumprido com entrega e, sobretudo, como muito amor ao projeto e ao que o projeto representa. Porque isto é o que importa na vida, fazer as coisas com amor, com carinho, com entrega. Quando estamos, estamos de corpo inteiro. Mas, sobretudo, quando estamos, lutamos pelas coisas até ao fim.

P – Num outro plano, a OCC conseguiu finalmente, há três anos, uma casa. Passou a residir e a programar o Pavilhão de Portugal. Mas com a solução do espaço, o projeto ganhou novas dificuldades sobretudo ao nível da gestão e programação do espaço?

R – Durante muito tempo, a casa foi a grande ambição. E foi assim que pudemos começar a desenvolver trabalho de outra forma e com outras condições. Logo durante o primeiro meio ano, concretizámos um conjunto de iniciativas que antes não tinha sido possível e que foram muito importantes no cada vez maior encontro com a cidade e as suas diversas instituições, associações e entidades. Naturalmente sempre com a dificuldade acrescida de não existir qualquer verba para a programação. Mas, mesmo assim, o Pavilhão Centro de Portugal, a Casa da Música da Orquestra Clássica do Centro, tem tido sempre a sua porta aberta a colaborações, parcerias e apoios diversos a entidades e projetos diversos também, mas num número considerável com um forte cariz social.

P – Esta residência e programação é para continuar?

P–Estamos aqui há três anos, mas também não significa que fiquemos no Pavilhão Centro de Portugal para o resto da vida. Se a orquestra entretanto conseguir criar condições e se se proporcionar, passou a haver a possibilidade do Convento de S. Francisco, que se antevê como um espaço fantástico, com condições técnicas para acolher uma orquestra residente.

P – Essa é uma ambição?

R – Os projetos e as pessoas estão cá para crescerem e para mostrarem que Coimbra é uma cidade culturalmente viva. E que a região Centro tem respostas ao mais alto nível em termos culturais.

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