Inquietude

Não há dois dias iguais, mas alguns adquirem tonalidades e sonoridades próprias que nos obrigam a meditar e a compartilhar. Hoje foi um desses dias. Pela manhãzinha cumpri com as minhas obrigações académicas. Gosto de dar aulas, gosto ainda mais do debate e inebria-me a perspetiva de criar e desenvolver novos conceitos. Para que tal aconteça preciso do estímulo dos alunos, mas, ultimamente, tenho reparado um comportamento estranho. Alguns comparecem tarde à aula, tão tarde que a dez minutos do fim ainda estão a entrar e, cúmulo dos cúmulos, duas alunas tiveram o desplante de se sentarem na coxia a dois minutos das nove horas. Vieram ouvir o professor? Claro que não, entraram para poderem assinar uma folha de presença que lhes permite ter acesso à avaliação contínua, evitando o exame final. Comentei os casos? Claro! Um incómodo académico desta natureza não poderia deixar passar em falta. Qual vai ser o resultado? Vai dar em nada. Irão continuar na mesma. Frustrante.

Cumpri igualmente com os meus deveres profissionais ao examinar trabalhadores muitos dos quais são meus conhecidos desde há longos anos. No entanto, verifico que alguns continuam a não seguir os conselhos para corrigir os seus fatores de risco e mesmo patologias. Consequências? Inevitavelmente irão ocorrer mais cedo de que o previsto. Falta de capacidade em os mobilizar? Não sei, talvez. Frustrante.

Desloquei-me em seguida a Santa Comba onde acabei por almoçar. Um almoço que não me caiu bem. Ouvi queixas devido a atrasos nos pagamentos das refeições de muitos escolares por parte de entidades oficiais. A angústia, bem visível, orlava-se de um olhar marejado e muito contido, o que me incomodou. Frustração social.

A Assembleia Municipal decorreu naturalmente com elevação e sentido de responsabilidade cívica e política. Foram debatidos vários assuntos, entre os quais o orçamento. Não costumo intervir, não é o papel do presidente, mas de vez em quando não consigo resistir, sobretudo quando estão em causa a necessidade da intervenção dos cidadãos, a responsabilidade de todos no bem comum e também a lealdade. Embora não tenha pronunciado esta última palavra, dei a entender a sua importância, porque é um requisito básico para que todos se façam compreender, seja entre partidos ou dentro do mesmo partido. Prezo muito a lealdade e fico frustrado quando a afogam no gélido rio da amargura. Frustração política.

Debaixo da noite prematura, e após longa gestação de circunstâncias óbvias, idade, limitações físicas e cognitivas, necessidade de cuidados permanentes e sobretudo preservar a dignidade humana, transportei ao lar um familiar. Uma noite dentro da noite. Custa? Muito. Conheço aquele olhar há muitos anos, mas hoje tive alguma dificuldade em penetrar no seu íntimo. Fiz várias tentativas mas fiquei confuso. Indiferença, resignação, compreensão, revolta, mal-estar, alegria, esperança, surpresa? Não sei o que senti ou o que vi. Pela primeira vez fiquei na dúvida do que estaria aquele cérebro amuralhado a pensar. Frustrante? Sim.

Cheguei a casa e fui atacado por três pequeninos, cada um à sua maneira. Uma expressão coletiva de alegria infantil que conseguiu neutralizar alguns dos acontecimentos do dia. Bela recompensa para continuar a viver mais um dia.

Após o jantar fui até à livraria. Não sabia que estava prestes a começar uma conferência, “Tolerância e Pobreza”, da responsabilidade de um colega da Faculdade de Economia. Fiquei e gostei. Muitas coisas foram ditas com profundidade e sabedoria. Não apresentou soluções milagrosas, mas compete aos que estão em “baixo” associarem-se, terem voz e debaterem soluções e não esperar pelas que venham de cima. Mas para que tal aconteça é preciso uma forte e exemplar intervenção cívica. Olhando em redor quase que diria que é também uma pobreza.

Um dia de inquietude; inquietude académica, inquietude profissional, inquietude social, inquietude familiar, inquietude política, inquietude cívica. Tanta inquietude! Valeu-me o conforto dos pequenitos…

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