Foi gostoso

Na sua habitual simplicidade, Luís Inácio Lula da Silva deixa o Palácio do Planalto, depois de oito anos à frente dos destinos do Brasil com uma frase que diz tudo: “Foi gostoso governar o Brasil!”.

Não é minha pretensão fazer uma análise dos mandatos de Lula, mas somente deter-me sobre as emoções e os sentimentos que esta frase de despedida desperta em todos nós.

Lula da Silva quis dizer ao mundo e a todos os que governam países grandes, países mais pequenos, regiões ou cidades, que governar é uma missão. Uma missão que deve ser realizada com alegria, com ambição de alcançar o que foi impossível até então, com liderança capaz de envolver os cidadãos, com carisma suficiente para vencer as dificuldades, sem tibiezas, e colocando sempre o interesse colectivo como centro da acção.

Na verdade, Lula da Silva sai, apesar do muito que ficou naturalmente por fazer, com o sentido do dever cumprido. Foi provavelmente por essa razão que aquela expressão lhe deve ter saído do fundo da sua alma.

Achei brilhante. Pensei que esta desconcertante genuidade faz falta à política portuguesa onde alguns se arrastam, outros fazem mais do mesmo e ainda outros fazem desse exercício um autêntico tédio, onde não há pingo de emoção, de alegria de fazer, de arriscar e de melhorar a sério, a vida das pessoas.

Não acredito que governar se possa resumir a um compêndio, uns projectos, um orçamento e a um grupo de pessoas. É necessário mais, muito mais. É necessário compromisso, envolvimento da sociedade, é necessário liderança exemplar, é necessária uma força imensa para superar as adversidades, é necessário trabalhar o suficiente para ir aos detalhes porque, muitas vezes, o detalhe faz a diferença.

Foi esse entusiasmo que li na afirmação do ainda Presidente do Brasil. Senti ainda mais. Senti que ninguém deveria aceitar ocupar cargos públicos e tão pouco sujeitar-se a actos eleitorais se não for para dar tudo o que sabe, com alegria para entusiasmar quem os rodeia, e com o sentido de missão renovado a cada dia.

Aos partidos políticos cabe o papel de interpretarem os sinais da sociedade, legitimando as suas escolhas e opções, num sinal de abertura e inteligência. A partir daí, os estados de espírito e capacidade de realização são sempre das lideranças que nunca se devem confundir com os próprios partidos.

Senti que este seria um bom tema, para o último texto de opinião deste rico ano de 2010, porque sinto que nos faltam políticos com sentido de missão, com capacidade de sonho para cumprirem os seus desígnios, vencendo, se preciso for, os tão populares “impossíveis”.

Do exercício legítimo dos cargos públicos deseja-se, sobretudo em Portugal, menos retórica, mais trabalho, mais simplicidade, menos formalidade, mais visão, menos queixumes e mais exemplo. Mais exemplo é particularmente importante. Não há boas lideranças sem bons exemplos.

Aprendamos e reflictamos! Terminar o exercício de um cargo público, tarefa sempre complexa e tantas vezes mal interpretada, dizendo ao mundo que “foi gostoso!” é uma lição de vida para muitos políticos.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*