Estamos à espera de quê?

Escrevo-vos de Cancún, México, onde decorre a Cimeira das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas. Na altura em que escrevo este texto ainda está tudo em aberto; amanhã, quando for publicado, já saberemos os resultados desta Cimeira. Em Copenhaga tivemos um acordo. Em Cancún teremos o quê? Um ‘processo’? Um ‘movimento’? Já sabemos que acordo dificilmente será, muito menos vinculativo…

Há ainda muitos impasses. Por limitações óbvias, escolho apenas um: o financiamento. Como é que podemos garantir que há dinheiro disponível para responder aos efeitos da crise climática? Qual o modelo? Qual o montante? Gerido por quem? Independentemente do modelo a que se chegar em Cancún, se se chegar, uma melhor compreensão deste impasse não perderá actualidade.

A primeira clivagem começa nos montantes. Países desenvolvidos a apoiar o montante definido em Copenhaga (100 mil milhões de dólares), os países em desenvolvimento a pedir que seja afectado 1,5% do PIB para um Fundo Climático. No entender dos países em desenvolvimento e de alguns países desenvolvidos, União Europeia incluída, este Fundo deveria ficar sob a égide das Nações Unidas; já no entender dos Estados Unidos, deveria ficar a cargo do Banco Mundial. Só depois de acertar estes “detalhes” se poderia discutir efectivamente a sua aplicação. Não é indiferente quem fica a gerir o fundo, assim como não é irrelevante a suspeita de que se está a tentar dar mais ‘oxigénio’ ao modelo de desenvolvimento que nos trouxe à crise em que estamos. Os países mais pobres reivindicam e com razão. Evo Morales chamou a esta operação de ‘economicídio’ – ou seja, validar um modelo de desenvolvimento e de pensamento económico sobre todos os outros e converter o que ainda resta da ‘natureza’ em mercadoria. Não é também indiferente não haver resposta disponível para situações de permanência ou de emergência resultantes de fenómenos climáticos extremos, como aconteceu há bem pouco tempo na Madeira.

As alterações climáticas são uma realidade e é difícil perceber do que estamos à espera. A irresponsabilidade de alguns países – e aqui é difícil perceber quem ficaria em primeiro lugar no ‘pódio’, se os Estados Unidos ou o Japão – e a incapacidade de se chegar a uma resposta comum foi ainda classificada por alguns de ‘genocídio’, no sentido em que estão a morrer cada vez mais pessoas em resultado das alterações climáticas – estamos a tratar de uma questão de sobrevivência e daquela que é das mais graves faces da crise global.

Sem sair destes impasses, nem sequer resta espaço para lidar com as causas desta crise. Poder-se-ia mesmo dizer que as soluções apresentadas, na sua substância, quase poderiam ser tiradas a papel químico das adoptadas para responder à crise económica. E, sim, também aqui serão os mais pobres a pagar mais.

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