Entrevista a João Firmino: vencer no mundo do jazz

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Foto de Gonçalo Manuel Martins

João Firmino é um músico de Coimbra que voltou de Amesterdão em “quinteto” e agora grava na JACC Records.

 

P – Como é que aconteceu o encontro do João Firmino com o jazz?

R – Eu estava a terminar o secundário e, além de frequentar o Conservatório de Música de Coimbra, comecei a fazer umas aulas de improvisação no IPJ. Embora, na altura, o jazz fosse muito encarado pelos miúdos como eu como uma música muito datada, com uma etiqueta… Mas, assim que comecei a ouvir alguma música, nomeadamente Pat Metheny, eu que sempre quis ser guitarrista, um bom guitarrista…

P – Foi uma espécie de revelação?

R – Foi. Foi um encontro com o que eu gostava realmente. Depois comecei a ouvir mais coisas, a comprar discos, a tocar. E, nessa altura, deixei de estar entre a música clássica e o jazz. O jazz ganhou definitivamente e fui para Lisboa para o Hot Clube de Portugal.

P – O Hot Clube que é ainda a grande referência do jazz em Portugal?

R – É, sem dúvida. Os professores, a aprendizagem. Depois também, havia a influência dos amigos. O contrabaixista que está na minha banda – o João Hasselberg – também foi comigo para o Hot Clube. Mas, já nessa altura, a minha intenção era a de ir estudar para fora.

P – Estudar fora foi sempre a sua opção ou foi necessário sair do país para estudar música?

R – Estudar fora foi uma opção minha. Mas em Portugal há muito bons professores, há cada vez melhores professores. No meu caso, que fui para o Conservatório de Amesterdão, como noutros casos de amigos e conhecidos, que foram para Nova Iorque ou Berlim, ir estudar para fora teve sobretudo que ver com o facto de conhecer outras pessoas e ter a possibilidade de viver outras experiências, o que acabou por acontecer e se reflete até na minha banda. No João Firmino Quintet somos músicos de várias nacionalidades, encontramo-nos cá e lá e isso é muito importante para todos. Embora, neste momento as coisas estejam já muito diferentes em Portugal. Mas na altura, numa escola o grupo de alunos que estudava e levava a música a sério era de cinco ou seis. E o que eu queria era ir para uma escola com 30 guitarristas melhores que eu, poder aprender com eles…

P – Num grau de exigência muito maior?

R – Exatamente. E por isso é que fui – eu e outros três colegas do Hot Clube – para Amesterdão. E não ter ido sozinho também foi muito importante, sobretudo na adaptação à cidade. Porque a escola é muito boa e, na Holanda, é razoavelmente fácil encontrar um trabalho em part-time que é uma grande ajuda.

P – Então é possível que algum jovem estudante, hoje, em Portugal, possa alimentar esse sonho de estudar numa boa escola internacional?

R – Sim. É possível e é uma boa opção. Claro que há sempre a ambição dos Estados Unidos [da América], mas é muito caro. Amesterdão é mesmo uma escola muito boa e agora que eu saí é que me apercebo melhor disso, da qualidade da escola, do ensino e das experiências que permite.

P – E essa troca de experiências é fundamental para a música, mas para o jazz em particular?

R – Sim. Porque hoje o jazz é cada vez mais uma música de fusão, com influências de cada um dos países de onde cada um dos músicos vem. Como na minha música, onde há muitos elementos da melancolia do fado, porque essa foi a música que eu ouvi desde criança por influência do meu pai. E estar em contacto com todas essas influências, tocar com outros músicos, viver a vida da cidade que é ela própria uma cidade de muitas culturas foi de uma grande riqueza.

P – E foi nesse ambiente de diversidade que surgiu o João Firmino Quintet?

R – Foi. Quando cheguei a Amesterdão já tinha umas composições e sempre tive a vontade de tocar com uma banda, o que aconteceu muito depressa com alguns alunos da escola, que, entretanto, sofreu algumas alterações. Desde 2008, existimos em quinteto – João Firmino (guitarra), Soso Lakatos (saxofone), Spyros Manesis (piano), João Hasselberg (contrabaixo), Andreas Klein (bateria) – e como eu sempre quis tocar em Portugal, surgiu a hipótese de alguns concertos. E, depois, por vontade de Pedro Rocha Santos, de gravar para a JACC Records do Jazz ao Centro Clube. E esta foi a concretização de dois sonhos, que culminou dois anos muito importantes da minha vida enquanto músico.

P – E gravar com a JACC Records, um projeto de Coimbra, é importante?

R – É muito bom. Por Coimbra, mas também pela identidade já conseguida e pelo projeto que estão a concretizar, gravando novos valores do jazz e apresentando-os ao país.

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