Centro Cirúrgico de Coimbra… Ou a cereja debaixo do bolo

Já resido neste hotel de meia estrela há quase três semanas. Per­fazem-se três semanas exatamente amanhã. Como muito bem sabes, fui submetido a uma cirurgia que se pressupunha simples e se complicou por mero des­leixo médico. Desleixo, incompetência, arrogância de quem tira uma espe­cialidade em Paris e julga que ficou a saber toda a medicina do Universo e cercanias… Não há ninguém, a não ser os deuses a quem já lhe foram impostas as insígnias, que não cometa um engano ou erro. O mais pintado os comete, mas há quem não possua ou não queira possuir a humildade de reconhecer o erro ou a falta cometida.

Coimbra é uma cidade de sábios. Nunca se enganam. Este privilégio per­tence ao parágrafo único da sebenta. Sempre assim foi, daí o seu atraso secular. Muitos quefazeres têm os médi­cos deste Centro Cirúrgico, falsamente considerado como a cereja no cimo do bolo da cirurgia paroquial, coimbrinha, mas com sérias pretensões a galgar o patamar ou o patíbulo da notoriedade nacional… A narrativa desenrola-se num ápice. Calhou ser eu a vítima de um enxerto do ilíaco para o maxilar superior, já mirrado de osso para poder suportar alguns implantes dentários. Dessa parte do ato, nada a apontar: nem um suor ou lágrima de dor em nenhuma das fases por que tem de passar uma operação cirúrgica. Serviço bem feito! A coxa direita, coitada, é que pagou todas as favas do bolo-rei da melodiosa quadra natalícia, este ano com raciona­mento de açúcar e muitas outras escassezes sopradas das europas do mundo…

Pressupõe-se que um vaso sanguíneo na coxa direita, farto de albergar sangue, se chateou e resolveu escoar-se para a coxa. Natural para quem tem uma especialidade e exerce outra, ou, melhor duas em sincronia. Simultânea e legalmente! Uma equimose (nódoa negra) logo se revelou, alastrante, negroide, preen­chendo um círculo de cerca de vinte centímetros, das coste­las até meio da coxa. O das duas especialidades nem fez caso. Tudo natural. Como a água que corre no rio e segue até à foz. Se alguém se afogar, a culpa nunca será do rio, mas de quem nele se afoitou a mergulhar, com um massagista a servir de caução…

“Movimente-se, mexa-se, não se ponha parado, faça exercício, enrijeça os músculos, torne-se atleta, ins­creva-se, sem pagar joia, ainda vai a tempo, o prazo só se esgota logo à noite, aliste-se num prova de corrida de muletas (perdão, canadianas), pode ter sorte, nunca se sabe, e ganhar o primeiro prémio, o gordo, encher-lhe-á a grande cloaca da conta calada da fatura que a clínica fará o especial favor de apresentar à saída, depois de descontada a caução, nunca se sabe com quem se lida, e tudo isto acontece, mesmo que a vítima tenha entrado pelo seu próprio pé e saído abraçado aos fofos roliços braços de umas muletas, perdão, canadianas, e amparado por uma ou duas pessoas, ao fim de dezassete dias de clausura doirada, adoçada com pílulas, sorrisos, visi­tas meteóricas do físico que tem muito mais que fazer que aturar doentes e acha tudo natural: nem sabe a situação clínica do paciente, confunde dores da coxa com dores do pé, não sabe ler uma radiografia, não admira, radio­logista nunca foi, há de sê-lo quando crescer, mente muito, mas, sobretudo, manda: ande, corra, faça ginástica de aplicação militar, flexões no varão da cama, olhe que a embolia pulmonar vem aí não tarda nada, não quero que venham os mestres de Paris de França dizer que não o avisei, que deles dependo para subir, subir…”

Coimbra admira muito os atletas que sobem a corda para alcançar o bacalhau no topo, andar é fundamental, em França o doente começa a andar antes de ressuscitar da anestesia, e logo caminha sem muletas, perdão, canadianas, país civilizado (a França, de Robes­pierre), o nosso, ainda não, só quando terminar o Serviço Nacional de Saúde, aí, sim: os doentes deixarão de ficar molengões com a anestesia e, em vez de só acordarem ao terceiro dia para subir ao céu, passam a ressus­citar já com as muletas, perdão, as canadianas, postas e já apetrechadas com um aparelho de marcar o ritmo do passo muletário, ande, ande, este é o lema de Paris de França a que devemos obedecer, andar, andar, correr, ginasticar, seguir à letra os preceitos da outrora capital do Mundo e das luzes, e agora tem Sarkosy e Bruna, também fazem jogging na cama, não se pode ter tudo, sigamos os alfaiates de Paris de França, como seguimos o antigo Curso Preparatório já depois de ter sido extinto vinte e cinco anos antes, andar, andar, marchar, contra os bretões marchar, tirem as muletas, perdão, canadianas, em verdade vos digo que elas serão abolidas no reino clínico da cereja no topo do bolo de Ançã, sem que este tenha culpa nenhuma…

3 Comments

  1. João Lopes says:

    Texto patético que não entendo como é publicado pel'As Beiras

    Acusações graves sobre a dignidade profissional de "alguém" que o autor não tem coragem de nomear; queixumes sobre um efeito secundário que não chegamos a perceber se ocorreu por má prática médica ou simplesmente aconteceu porque estas coisas acontecem; "muletas, canadianas, muletas, canadianas" é suposto ser engraçado? Paris de França, Paris de França, Robespierre? o que tem isto a ver com quê?

    O diário As Beiras agora vai publicar as "crónicas" de cada doente que tem um efeito secundário de um tratamento e fica chateado por estar doente?

    Resumindo, um lixo de texto, absurdo completo. À atenção da redação d'As Beiras que se desprestigia a si própria e ao jornal com a publicação. Penso que As Beiras devem almejar outros voos em termos de jornalismo.

  2. Coimbrinha says:

    Então o meu amigo foi fazer um transplante osseo. Consulte o site Malo Clinics.
    Eu falo por experiência pois fiz implante total do maxilar inferior há 15 dias e já estou como novo.

  3. pois…se houvesse panaceias e todos fossemos iguais…vergonhoso texto, mais, uma queixa, quando há lugar a ela não se faz assim…pequenas mentes que envergonham Camões…

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