Algumas reflexões sobre os hospitais de Coimbra

Surgiu uma alínea à última hora no orçamento de Estado para 2011 falando na criação dum novo centro hospitalar em Coimbra (Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, CHUC), fundindo um hospital e dois centros hospitalares já existentes. E mais não se disse, deixando espaço para algumas reflexões como estas, sobre o que existe e irá deixar de existir.

Coimbra é sem dúvida, no momento, uma referência na Saúde do nosso país, e isso deve-se não só à sua Faculdade de Medicina e a todas as outras Escolas e Institutos de algum modo ligados à Saúde, dentro e fora da Universidade, mas também à existência de dois hospitais centrais e dois hospitais especializados, dois deles, aliás, organizados em centros hospitalares, o CHC e o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Coimbra. É esta concentração de meios, físicos, técnicos e humanos, que tornam a nossa cidade o destino para muitos doentes, em busca de diagnóstico e alívio para as suas doenças, como para muitos profissionais que querem cá vir aprender e praticar, para depois levarem os conhecimentos aqui adquiridos para as suas terras, juntamente com uma ligação perene, pessoal e pós-graduada, a esta cidade.

Poder-se-á dizer que Coimbra não tem população nem dimensão enquanto cidade para tantos meios de saúde, mas é precisamente isso que a transforma num centro de referência nessa área. O mesmo se passa com tantos outros grandes hospitais de renome mundial por esse mundo fora, localizados em cidades mais pequenas que Coimbra e com uma dimensão que excede larguissimamente as necessidades puramente locais. Na verdade, essas cidades vivem até basicamente desses hospitais: só são conhecidas por albergarem a sua existência e a das escolas, laboratórios, institutos, residências, que os rodeiam, e a elas afluem doentes e profissionais de saúde de todo o mundo, dinamizando drasticamente a sua economia.

Os dois hospitais centrais, polivalentes, de Coimbra drenam, como fim de linha, toda a zona Centro, cada um deles com uma área específica, e qualquer um deles é também, além disso, procurado por doentes oriundos de todo o país. Em Inglaterra entende-se que deve haver um hospital central por cada milhão de habitantes (isto num país onde os doentes são primariamente vistos pelo seu médico de família e só excepcionalmente são dirigidos ao hospital, ao contrário do que se passa entre nós). A zona Centro tem dois milhões e oitocentos mil habitantes, portanto deveria ter três hospitais centrais. Mas por que razão devem estar dois sediados em Coimbra? Em primeiro lugar porque já cá estão, há 37 anos, a trabalhar em pleno e reconhecidos por todos. Depois, porque é muito vantajoso estarem concentrados numa cidade em redor da sua Faculdade de Medicina e das outras Escolas e de Institutos de Investigação, com que podem e devem colaborar, isto numa zona geográfica que de lés a lés tem pouco mais de 200 quilómetros. Seria profundamente errado dispersar estas instituições por várias cidades da zona, destruindo assim o centro de referência que agora existe, sobretudo quando alguém defende, pelo contrário, a concentração de todos os nossos hospitais num único. Mais uma vez no meio é que parece estar a virtude, como diz o povo.

E o povo também diz “grande nau, grande tormenta”, e acrescenta que “muita gente junta não se salva”. Que é o que se vai obter com a fusão anunciada. Inscrita num orçamento profundamente restritivo, só se pode compreender que vise o não gastar dinheiro. Reduzindo três hospitais a um, será falacioso dizer-se que é para aumentar a acessibilidade dos doentes: pelo contrário, ela irá necessariamente reduzir-se, com aumento do número de doentes sem tratamento ou à espera dele, acumulando-se em listas de espera cada vez maiores. Desse modo se pode poupar na Saúde, realmente, mas não creio que seja aceitável querer poupar não tratando doentes. A não ser assim, há que ter em conta o futuro, pois depois de desmantelados e fundidos os três hospitais não será fácil nem rápido recuperarem-se, sem deixar muitos doentes, de Coimbra, do centro e do país, de fora e à espera durante muito tempo. Além de que a diversidade entre eles, e alguma competitividade, é fonte de progresso e de maior oferta para os doentes, ao invés do que se obtém com o monolitismo resultante do monopólio de pessoas e serviços.

Um aspecto positivo nessa reunião de hospitais seria a possibilidade de maior colaboração mútua no ensino e na investigação do que aquela que já há. Seria útil poderem estar unidos pelo SNS, a que todos pertencem, e pela Faculdade de Medicina, como um centro hospitalar e universitário, tal como foi baptizado antes de existir. Mas fica-se legitimamente com todas as dúvidas sobre esse possível aspecto, ao saber-se que a Faculdade de Medicina teve conhecimento da decisão como toda a gente, isto é, pela comunicação social.

Resta, portanto, a poupança pura e simples. Com as consequências já apontadas, mas também sem ser evidente que se consiga sequer poupar, feitas as contas à despesa enorme para fundir as três instituições, com tantas particularidades individuais de difícil compatibilização, num enorme hospital de difícil gestão e rentabilização e que, por isso, já não há no mundo. E com o custo imenso de destruir o que levou dezenas de anos a construir. O hospital onde trabalho (CHC, Hospital dos Covões), sei eu que precisa é de mais tempo operatório e de consulta para dar vazão aos doentes que a ele acorrem, e suponho (acredito) que nos HUC seja igual; mas mesmo que não fosse, quem se lembraria, perante um restaurante cheio e com gente à porta à espera, fechá-lo só porque ao lado há um maior às moscas?! E acho que nem é esse o caso, volto a dizer. Os hospitais não se fazem dum momento para o outro, levam muitos anos a constituir-se, e por isso não se devem desfazer de ânimo leve, só por razões de última hora dum orçamento geral. É muito grande a responsabilidade de quem o fizer, e por muitos anos.

A redução de três hospitais de Coimbra (HUC, CHC, CHPC) para um (CHUC), visa com certeza a redução da despesa com a Saúde. Com custos facilmente previsíveis para a Saúde e para a cidade, e sem ser mesmo certo que se obtenha qualquer redução de despesa, antes pelo contrário. Aliás, à semelhança do que tem acontecido nos últimos anos com as medidas tomadas pelo governo nesta área. Dois mil milhões de euros de prejuízo acumulado depois, há que encarar este facto de frente. E fazê-lo encarar, procurando mudar o caminho seguido. Invertê-lo mesmo, antes que seja tarde demais.

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