A mesma receita

Nas décadas de 80 e 90 do século passado, a Irlanda era considerada uma referência como modelo de desenvolvimento económico por grande parte dos fazedores de opinião nacionais e internacionais. Até a designavam por tigre celta.

Tendo aderido à UE em 1973 (então CEE), foi o país que recebeu mais fundos comunitários durante mais de uma década, seja per capita ou em percentagem do PIB. O recorde foi atingido em 1991 com 7,1 por cento do PIB. Em 1987 o governo irlandês conseguiu a aprovação de um pacto social, segundo o qual o défice público foi reduzido de 14,2 para 2,8 por cento do PIB, mercê de corte de despesas que baixaram de 35,1 para 2,8 por cento, baixa de salários, redução investimentos públicos e do número de funcionários, desmantelamento do sector económico estatal através de privatizações, redução dos impostos sobre os lucros das empresas privadas para uma taxa máxima de 10 por cento, que foi aumentada para 12,5 por imposição da UE por a considerar excessivamente baixa em competitividade fiscal com os restantes países membros. Em suma, foi aplicada a receita de menos Estado.

Na década de 80, a Irlanda conseguiu atrair cerca de um milhar de empresas estrangeiras, sobretudo norte-americanas, que nessa época começavam a internacionalizar-se, as quais, por sua vez, originaram a expansão de empresas nacionais suas fornecedoras. Em 1996 as multinacionais recebiam cerca de 15 mil euros por emprego criado e geravam perto de 30 por cento do PIB, sendo quase tudo para exportação. Entre 1980 e 2000, tendo por base o PIB per capita da UE igual a 100, o PIB per capita irlandês passou de 60 para 110 por cento.

A partir de 2008, com a debandada das multinacionais para outros países, a Irlanda entrou em recessão económica, esperando-se em 2010 uma quebra do PIB à volta de 10 por cento e o governo preparou um programa de austeridade com recurso à ajuda financeira da UE e FMI para salvar as contas públicas, com eliminação de dezenas de milhares de postos de trabalho, cortes de salários e de prestações sociais, aumento do IVA, etc., de alguma forma idêntico ao que o governo português está presentemente a procurar a implementar (PECs).

Na opinião do Presidente da República Portuguesa, a crise em Portugal é muito diferente da crise da Irlanda. Por isso, Cavaco Silva espera que «não seja necessário» pedir ajuda à UE e ao FMI. Cavaco, para além de considerar que o volume de investimentos dos Estados Unidos em Portugal estar «muito distante do que seria legítimo esperar», deixou claro que explicou «muito bem» essas diferenças a Barack Obama e que o Presidente norte-americano lhe disse que a sua «administração reconhecia a diferença de Portugal em relação a outros países do sul da Europa».

Sem pôr em dúvida a sapiência dos presidentes português e norte-americano, parece poder concluir que nestas coisas de crises económicas a mesma receita será eficaz para situações diferentes.

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