Uma rua que anda

Diz o nosso povo, com alguma propriedade, que com o mal dos outros podemos nós bem. Se, por um lado, me não atrevo a negar a sabedoria popular, creio, por outro lado, que há coisas sérias que, bem vistas, nos fazem relativizar os nossos agravos.

Lembro em simultâneo da grave situação económica de Portugal (que, cedo ou tarde, receio bem, será também grave no plano social) e da visita que fiz ao Ruanda, há não muito tempo.

Como saberá, hutus e tutsis andaram envolvidos em sucessivos conflitos étnicos, com especial proeminência para o final dos anos 50/início dos anos 60 e para o tristemente célebre massacre de tutsis e hutus moderados, em meados da década de 90.

De facto, em 1994, o regime hutu iniciou um genocídio que contou com a preciosa fuga das tropas belgas ao serviço da ONU, depois de 10 dos seus soldados terem sido mortos. Mais uma vez, as Nações Unidas lançaram dúvidas sobre a sua actual configuração, refugiando-se as suas tropas numa cobardemente alegada insuficiência do mandato, enquanto, a seus olhos, milhares de pessoas eram assassinadas, mormente a golpes de catana e machete.

Também as igrejas e missões não ficaram isentos de responsabilidade, pois muitos dos perseguidos que lá buscaram refúgio apenas adiaram a sentença, sendo traídos por padres e freiras. Uma excepção honrosa foi a irmã Tonia Locatelli, assassinada em 1992, em virtude do apoio que sempre deu aos perseguidos.

Não menos digna de ser recordado é o heroísmo de Paul Rusesabagina que, ante a fuga dos gerentes belgas, se encarregou da gestão do Hotel des Milles Collines, dando refúgio a dezenas de tutsis e hutus moderados em fuga, subornando as milícias hutus com álcool e dinheiro. O hotel é uma boa escolha para a sua estadia e a história foi contada no filme “Hotel Ruanda”, pese embora o tenham filmado num hotel sul-africano. A capital.

Kigali, surpreende pela convivência pacífica das duas etnias e pela afabilidade do povo, sempre com um sorriso nos lábios, e pela sensação de absoluta segurança. Não tendo grandes motivos de interesse, talvez o centro evocativo do genocídio e os excelentes restaurantes façam o seu dia.

Muda o caso de figura quando falamos nos memoriais propriamente ditos, situados onde eclodiram os maiores massacres. Se o de Ntarama (25 km da capital) impressiona pela noção de que morreram crianças, pelos vestígios de ossos ainda por colher e pelas prateleiras imensas de partes de esqueletos, o de Nyamata (30 km), onde foi sepultada a irmã Locatelli, marca não apenas pelo amontoado de ossaturas, mas também pelas pilhas de roupas amontoadas nos bancos da igreja, perante os olhos de uma estátua da Virgem. Onde estaria ela em 1994?…

Ainda um degrau acima na escala do horror fica o memorial de Ginkongoro (onde uma armadilha foi montada), a uns remotos 140 km de Kigali; os cadáveres conservados em cal e os sítios que marcaram a alegada indiferença das tropas francesas não são para todos. Perto daqui e bem mais ligeira é Huye/Butare, capital intelectual do país, onde a catedral e o museu nacional (bom artesanato, na loja!) preenchem bem o dia. De todo o modo, pela história, pelos cenários naturais e pelo exemplo de agregação nacional, eis uma sugestão “alternativa”.

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