Sem culpa

A vida atulha-nos de acontecimentos como se fossemos um aterro a céu aberto. Outras vezes delicia-se a fabricar circunstâncias só para não termos acesso a um pouco de tranquilidade e à beleza de um parque agradável.

E já nem falo do éden. É preciso apanhá-la distraída para podermos entrar, mas acaba por durar pouco; os “securitas”, uma versão mais prosaica de uma qualquer ordem a imitar a divina, prontificam-se a convidar à saída. Xô, xô, fora daqui! Enxotados que nem uns cães, vamos tentando viver com mais ou menos tranquilidade, sempre sobressaltados com o que o vai acontecer no dia seguinte.

As causas dos infortúnios são variadas, umas vezes é a dita natureza, devido à sua “natureza” probabilística, cega, surda, muda e indiferente às pretensões humanas, e outras, talvez as mais comuns, são da responsabilidade humana. Neste último caso, deparo-me com um fenómeno universal, constante e difícil de eliminar ou de controlar, a falta de caráter de muitos seres humanos. É incrível que, ao longo do tempo, não tenhamos conseguido grandes conquistas nesta área. Nem o aparecimento de novas religiões, nem a evolução do direito, nem a generalização do acesso à educação, conseguiram travar um fenómeno que tem causado muito sofrimento nas vítimas. Um horror. Provavelmente, e de acordo com as evidências científicas, a razão assenta no funcionamento do cérebro.

Em termos práticos, certos comportamentos psicopatas têm explicações na forma como o cérebro trabalha, ao ponto de algumas pessoas não serem condenadas, porque são “assim mesmo”. Mas não é preciso chegar a casos extremos, também os casos minor, os mais comuns, podem ser explicados de acordo com a estrutura e funcionamento cerebral.

Vigaristas, ladrões, corruptos e quejandos poderão, um dia destes, justificar os seus atos graças ao funcionamento dos seus cérebros, logo não têm culpa. E se sentirem culpa, o que duvido, também não deixarão de encontrar justificações produzidas pelos seus cérebros “doentios”. Uma maravilha quantificável e suscetível de ser visualizada com as novas técnicas.

Na prática, as consequências da falta de caráter podem ser dramáticas, ao ponto de provocarem o suicídio da vítima. A leitura de um relato sobre um homem de 38 anos, que se suicidou como forma de reagir à sentença de violação de um sobrinho aos três anos de idade, causou-me mal-estar.

“Sem culpa”, a obra escrita pelo suicida, é uma história que exige atenção e uma profunda reflexão. Após a leitura da notícia acabei por ler o pequeno livro. A notícia do jornal comporta novos dados, muito importantes, a favor da inocência da vítima e da falta de caráter de alguns intervenientes.

Quando alguém opta pelo suicídio para provar a sua inocência, qual deveria ser a resposta da sociedade? Culpada! Eu ainda não ouvi, e tenho dúvidas de que algum dia possa assistir a algo de semelhante.

No bilhete do suicídio, o autor remete para o livro as suas razões. Mas há no contrato com a morte um pormenor que merece ser realçado: “Prefiro morrer livre no vosso país a viver no meu, Portugal. O meu último desejo é ser enterrado nos EUA. Por favor, make it happen”.

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