Perpetuando ignorâncias

Ensina-nos a história dos países mais avançados que a cultura e a ciência são elementos fundamentais do desenvolvimento económico e social. Referindo-se à China, conta-nos o The Economist (9/10/2010, pp.89-90) o caso de um blogger, que criticou um caso de má conduta científica e acabou agredido por um gang. Colocando a hipótese de estas acusações lembrarem a histeria despoletada pela Revolução Cultural Maoista, considerava que tinha sido colocada em causa a produtividade científica da China, que em termos de papers publicados é a segunda nação mais produtiva. Concluía que se a China não tiver uma ciência honesta, o seu desenvolvimento será impedido. Claro que não falou do Macartismo, mas disse que parecia ou podia ser uma caça às bruxas. Falou dos inimigos do cientista em causa e que isso não surpreendia. Por cá, poucos sabem os trabalhos que passam os investigadores portugueses para produzir coisa que valha a pena. Sabem ainda menos do que sofrem os que conseguem atingir objectivos científicos mínimos e, bem pior, as invejas que despertam em gente que amesquinha e destrói vidas de trabalho. É o resultado de cunhas de gente pouco recomendável que se faz recomendar porque de outra forma nunca entraria nos claustros universitários ou politécnicos. São quase sempre gente ridícula como contava alguém em Outubro de 1910, acabava então de ser proclamada a República, dizendo: “E já agora que falei do Rabaçal – os meus amigos a quem tenho contado a coisa que me perdoem a massada ou façam uma boneca com o que tiverem à mão – não resisto à gana de contar outra boa, acontecida há anos em Coimbra num exame de habilitação ao magistério primário. O examinador, benévolo, pergunta a um candidato recomendado: «Qual é a capital de Portugal?» Resposta imediata e retumbante: «Penela.»

O contador desta história atribuía esta ignorância aos efeitos perversos do queijo do Rabaçal. Mas, o lugar que assim atribuído foi perdido por alguém bem melhor preparado. Teve de haver naturalmente um processo perverso de o impedir que fizesse fazer valer os seus direitos, e estes processos são quase sempre dolorosos e desumanos. E para impedir a ocorrência destes factos, teria de haver transparência nos concursos. Teria de haver uma efectiva garantia de carreira e de incentivos para os que tivessem capacidade de trabalho, pois, de facto, os que ficam nos lugares assim “ganhos” tornam-se obstáculos ao progresso económico e social. E nada se ganha com a jubilação destes pois logo são substituídos pelo seu discípulo mal fiel. Mais se perde quando “em nome da crise” se cortam recursos para a investigação e se precarizam as vidas dos que a fazem. E, infelizmente, com o afã de equilibrar as contas do estado, mantemos este nosso anquilosamento ancestral. Esquecemo-nos, enfim, de aproveitar a crise e perpetuamos estruturas organizacionais que nos impedem de sermos competitivos.

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