Estado de coma

Normalmente, quando alguém está em estado de coma, consideramos que a situação é grave. Infelizmente para todos nós, vivemos num Estado de coma. Esta condição dramática em que o país se encontra mergulhado, deve-nos levar a pensar sobre as virtualidades da democracia. Costuma-se dizer que a democracia é o menos mau dos sistemas políticos, mas aquilo que talvez fosse bom reflectir é em que circunstâncias é que a democracia deixa de ser um bom sistema de organização da sociedade.

É considerada como verdade absoluta que o nosso país, a partir da Revolução de Abril, vive em democracia, e que, antes disso, atravessámos um longo período (cerca de 40 anos) de ditadura. Curiosamente, considero que o nosso país terá vivido alguns “momentos” democráticos ao longo do último século. Na generalidade, ou vivemos em ditadura, ou em partidocracia.

É verdade que se diz (e assume) que a existência de partidos é vital para a existência da democracia. Uma coisa é certa, quando o General Ramalho Eanes foi eleito Presidente da República pela primeira vez, a máquina partidária teve uma influência relativamente modesta, tendo sido realmente dada a voz aos portugueses. Desde então, temos assistido apenas e só à evolução da partidocracia.

É hoje uma evidência que a partidocracia é um sistema parasita e letal para a democracia. Aliás, basta ver o que acontece dentro dos próprios partidos, para se perceber que a corrupção, o caciquismo e outros tiques impróprios para quem tem de garantir um sistema democrático, estão lá todos. E é precisamente por causa da nossa democracia ter involuído para a partidocracia que o nosso país está em Estado de coma.

Importa perceber que o nosso país se encontra numa situação insustentável porque a lógica da partidocracia obriga a trabalhar para alimentar a máquina partidária, tendo sempre presente a existência de ciclos eleitorais. É absolutamente óbvio que o descontrolo das contas públicas (e também privadas) resulta de opções conscientes e, à escala da nação, criminosas. Para se perceber a falência do sistema de saúde, segurança social, etc., bastava saber-se matemática básica e ter feito as continhas há um par de décadas. Se assim tivesse sido não estávamos hoje na actual situação. No entanto, para agravar ainda mais o problema, a partidocracia entendeu que a forma de o resolver era penalizar quem garante o funcionamento daqueles que são os pilares de um estado social: a administração pública. É que até parece que a dívida das contas públicas não é acompanhada pela dívida do sector privado (ou por acaso o BPN, entre muitíssimos outros exemplos, era uma instituição do estado?). Então porque motivo apenas os trabalhadores do estado têm de contribuir para o resgate da crise? É que muitos dos empregos do sector privado só existem porque a partidocracia assim permitiu, alimentou e até usou para colocar os seus apaniguados.

Tendo em consideração o buraco em que estamos metidos, resta-me desejar que consigamos sair do Estado de coma sem necessariamente passarmos para um Estado de choque. É que nem um nem outro são saudáveis para a democracia e, fundamentalmente, para a herança que, certamente, todos gostaríamos de deixar às gerações futuras.

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