Em louvor da simplicidade

Neste dia 1 de Novembro, dia de todos os santos, poucos rezam algo que se veja. Recordam apenas os familiares e os amigos que já partiram, e alguns morreram inquietos com a sorte dos que cá ficaram. Outros partiram calmos com a certeza de terem cumprido os seus deveres.

Outros, que lutaram uma vida e quiseram ter uma reforma por muitos anos, logo foram dela desapossados. Todos são os nossos santos por mais pecados de incoerência que tivessem cometido. Vão para o céu desde que tenham sido quanto baste bons amigos.

Fazem comemoração diferente do outro lado do Atlântico, em que o dia de celebrar e honrar os mortos é o dia 2, o dia dos fiéis defuntos, em que convivem com tantas práticas mágicas, que se juntam nas muitas religiões do Rio de Janeiro e afinal de todo o Brasil, para tentar dar sentido à vida.

Recordamos assim de formas bem diferentes os nossos mortos, esquecendo defeitos, contrariedades e até traições.

Tudo se torna simples e sem mácula. Fazemos como “António Nobre (que) orava assim: Rezai por mim, ó minhas boas freiras/Rezai por mim, escuras oliveiras/De Coimbra, em Santo António dos Olivais:/ Tornai-me simples como eu era antes/Sol de Junho queima as minhas estantes,/Poupa-me a Bíblia, Anthero…e pouco mais!”.

E agora que perante a campa dos nossos pais, avós, primos, ou simples colegas de profissão, há que recordar o quanto mortais somos, e na simplicidade da morte ver tantos actos de simples falta de entendimento do que estava em jogo, quando alguns se renderam perante a “coragem” dos governantes. Foram os que encurtaram a vida dos que morreram precocemente por falta de cuidados ou, só, pela pressão dura e triturante dos que reduzem a qualidade de vida dos que trabalham em nome de valores, que não revelam, nem podem confessar.

Alguns, mais temerosos, sufocam os seus direitos e deveres e vivem vidas sem sentido, nem valor. Inventam até razões embrutecedoras para se amesquinharem, e não soltarem qualquer queixume. Tentam até sufocar os queixumes que ouvem. Que coisa horrível lhes deve passar pela cabeça.

De facto, os últimos anos foram tempos difíceis para os que trabalham, e ainda mais para os que ensinam em condições difíceis de horários sobrecarregados, e ainda mais quando estes prejudicam o cumprimento dos deveres fa miliares.

Salvam-nos os colegas mais sensíveis. Lançam-nos no fogo do remorso os que consideram que qualquer cuidado com a nossa saúde e com a dos nossos familiares é coisa sem valor. Mas, perante o nada que resta quando esquecemos os valores eternos da humanidade, que a Bíblia guarda como livro sagrado, temos que assumir a simplicidade dos direitos inalienáveis dos seres humanos. Mas, o despojamento de tudo que é a morte, torna tudo mais fácil, obrigando-nos a repensar o nosso destino, ou seja, a vida que queremos.

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