É preciso fazer alguma coisa

Por acaso coincidiram, em poucos dias, em jornais de Coimbra ou da Academia, vários trabalhos onde o denominador comum é a praxe, as festas académicas e aquilo em que estão a cair. Afinal já muita gente começou a verificar que as coisas não estão bem. O problema não é só de Coimbra, mas esta academia tem especiais responsabilidades, não só porque foi ela que começou mas também porque encarna, no imaginário nacional, a própria ideia de universidade e de estudante, e isso pesa muito. A tradição – que nem sempre se recomendou – não pode, apesar disso, estar nas mãos de uns tantos que, acabados de chegar e já de partida, imberbes facial e intelectualmente, vêm aqui fazer o seu desmame mediante comportamentos inaceitáveis sob a capa protetora da impunidade praxística.

O problema não se resolve proibindo as ditas cenas – o que terá que acontecer se as coisas continuarem a descer deste modo. Mas não será a melhor maneira, porque não faltariam saudosistas a ficar cegos, mesmo face aos mais condenáveis praxismos, e logo viriam os demagogos do costume a gritar contra a repressão – assim farão até a anti-repressão se transformar em repressão e lhes cair em cima, além disso os políticos de terceira não deixariam de meter o bedelho, para aproveitar, etc.

Ouvindo, na Sé Nova, há dias, excertos do Messias, de Händel, pela Orquestra Clássica do Centro e pelo Orfeão Académico de Coimbra, não pude deixar de pensar nas distâncias que podem separar manifestações de uma mesma cultura – neste caso a chamada cultura coimbrã – e no muito que ela pode fazer para puxar pelo nível geral da academia, e nem sempre faz. Com efeito, a receção ao caloiro podia ser uma excelente ocasião para a Universidade de Coimbra, e a cidade, mostrarem a sua excelência, ou, pelo menos, os muitos furos que estão acima da média portuguesa e fazer disso factor educativo e distintivo. Muitos estudantes, talvez a maioria, entram e saem com grande desconhecimento de tudo o que diz respeito à Universidade e à cidade. Têm uma ideia elementar da sua história, do seu património monumental e simbólico, passam de raspão pelas múltiplas actividades da Associação Académica e muitas vezes, em termos culturais, saem tão pobres como entraram. Por outro lado, para os acabados de chegar, sabendo do estado de indigência cultural de muitos, era uma boa oportunidade para criar formas de receção que os despertassem culturalmente. Mediante concertos, visitas guiadas aos monumentos, conferências, representações teatrais, em sala ou ao ar livre, festas variadas, enfim, modalidades múltiplas – já inventadas e a inventar – de contacto com a Universidade e a cidade e na base dos seus melhores trunfos. Seria uma boa oportunidade de os iniciar na vida académica e no espírito universitário que, apesar dos setecentos e tal anos que tem dentro de si, está ainda em formação.

Perante a beleza da interpretação conjunta da Orquestra, (com nove anos) e do Órfão Académico (com cento e trinta) percebemos como Coimbra e a Universidade se vão conservando e renovando, apesar de tudo. Depois, considerando, neste quadro inspirador, as actuais formas de receção aos caloiros, percebemos que algo deverá ser feito. A Associação Académica precisa de abandonar os discursos gastos e as campanhas débeis e sem chama, e perceber que lhe compete ver mais largo e mais alto. Tem pela frente um trabalho muito mais estimulante, rico, valioso e útil: organizar e promover formas de inserção e receção aos caloiros que os valorizem e os tornem exigentes para o resto da vida, porque exemplos de degradação, temos muitos. A partir daqui ela própria se revalorizará. É de uma revolução cultural que se trata. Só a Associação Académica de Coimbra, pela sua idade, nome e pergaminhos, está à altura de a iniciar.

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