Demónios

“E afinal, Deus existe?”, perguntou-me antes de sair de casa. “Como?” A hora era demasiado inicial para tão complexa questão. “Pai, Deus existe ou não? “ Pensava ainda na interrogação matinal quando minutos depois atravessei a Praça 8 de Maio. “O senhor doutor desculpe. Dá-me licença…” Dava, era evidente. “Permite-me que lhe ofereça um café?” Era uma senhora de idade avançada, impecavelmente arranjada, vestida como se fosse para uma festa. Seria uma voluntária de causas caritativas? “Terei muito gosto, minha Senhora!”. Entrámos num café próximo.

A velha senhora, indiferente às leis em vigor, acendeu um cigarro e fosse pela majestade do aspecto, ou pelo que fosse, ninguém esboçou qualquer protesto ou intenção de reclamar. “Desculpe incomodá-lo, senhor vereador. Mas não me sentia com à vontade para ir ao seu gabinete. Telefonei a marcar uma reunião consigo…” e quase em segredo, “mas tive vergonha! A verdade é que estou na maior miséria. Fui casada 40 anos com o doutor fulano. Conhece?” Ouvira falar. “Tive tudo. E agora vivo miseravelmente. Os meus rendimentos já não chegam para os medicamentos. Tenho este aspecto… não me rendo! Mas não tenho absolutamente nada!” Calou-se por instantes, respirou fundo e concluiu: “Só precisava de um tecto. Será que me pode ajudar?”

Lia o correio, minutos depois de ter tomado o café que só consegui pagar após insistência e invocação de cavalheirismo. Do monte de cartas manuscritas, retirei uma de caligrafia arrastada, triste. “ Sou viúva, tenho 62 anos, venho pedir uma ajuda a V.ª Exa. Sou reformada por invalidez e com vários problemas de saúde dos quais já fiz três internamentos no Instituto de Oncologia.

O motivo que me levou a escrever esta carta é que a minha reforma é muito pequena e não dá para pagar as contas como a renda de casa, água, gás, luz, medicamentos e alimentação, visto eu ser uma pessoa hipertensa e diabética. Gostaria que Sua Ex.ª me ajudasse numa habitação que eu pudesse pagar consoante a minha reforma para que eu pudesse viver honradamente os restantes meses que Deus me der.

Assim eu poderia comprar os meus remédios e ter uma alimentação, nem que fosse uma sopa, mas com dignidade. A minha renda é de 250€ por mês. Luz, água, medicamentos mais para 100€. Agora veja, quem recebe 274€! (…) Peço a Sua Ex.ª que reveja bem estas letras que uma pobre viúva lhe escreve…”

“Pai, Deus existe ou não? Sabes? Parece-me que há muitos demónios. Esses mercados que mandam nos ministros devem ser deuses, mas muito maus. Não podemos vencê-los?” Prometi que lhe respondia ainda hoje.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*