Coimbra mostra os Caminhos do Cinema Português

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Vítor Ferreira apresenta um festival que leva 17 anos e sobrevive a todas as dificuldades.

P – XVII Caminhos do Cinema Português. Todos os anos é uma luta para concretizar mais uma edição do festival?

R – E cada vez está mais difícil. E podemos começar logo pelas transformações técnicas que o cinema teve nestes últimos anos. Por isso, também é cada vez mais difícil para organizações como a nossa fazer um festival. Estou a referir-me concretamente ao cinema digital, que é cada vez mais corrente. Há cada vez mais filmes produzidos em suporte digital. E só para ter uma ideia, o aluguer de um projetor digital para dois dias custava 8.500 euros, para uma semana custava 30 mil euros.

P– Esse custo é incomportável para um festival como os Caminhos?

R – É incomportável. Ainda tentámos que uma empresa viesse fazer um road-show, para que nós tivéssemos possibilidade de projetar o “Filme do Desassossego”, de João Botelho, o “Quero ser uma estrela”, de José Carlos Oliveira, ou o “Contraluz”, de Fernando Fragata. E nenhum deles está no programa, porque são apresentados em formato digital e nós não temos em nenhuma sala das que estamos a utilizar – TAGV, Mini Auditório Salgado Zenha e Theatrix – equipamento para isso.

P – Esta é uma questão que irá colocar-se cada vez mais?

R – E esse é que é o grande problema. Por isso, temos de pensar cada vez mais nas salas que temos, se vamos apostar apenas no circuito comercial. Numa matéria onde os poderes públicos têm uma responsabilidade enorme, porque, ao não equiparem as salas que tradicionalmente passam este tipo de cinema, estão a fazer uma política cultural pró-comercial.

P – Há, de facto, aqui uma responsabilidade das políticas públicas?

R – Sobretudo quando é o próprio ICA (Instituto do Cinema e do Audiovisual) a estimular a produção em digital. O que se compreende, por um lado, porque diminui fortemente os custos de produção, para além da maior qualidade, mas depois não se preocupa com o equipamento devido com os espaços alternativos onde passa este cinema ou, neste caso, com os Caminhos do Cinema Português.

P – Em Coimbra, só as salas de exibição comercial é que têm possibilidade de passar cinema em formato digital?

R – Exacto. Eu acredito que seja uma preocupação da Fundação Cultural da Universidade de Coimbra equipar o TAGV com o equipamento de projeção digital, agora que a programação da sala tem passado especialmente pelo cinema e quando se perspetiva que a película morra em dois ou três anos. Para os Caminhos do Cinema é incomportável, uma vez que punha em risco a realização de três festivais. No futuro, irá colocar-se a possibilidade dos Caminhos do Cinema trabalharem com uma das salas comerciais em Coimbra, apesar de o termos tentado sem qualquer sucesso no passado.

P – Com 17 anos, os Caminhos do Cinema conhecem novos problemas, mas continuam a viver com os antigos?

R – E o problema mais antigo é a questão da organização, que se mantém inteiramente voluntária, sem uma capacidade de responsabilização formal. Esta continua a ser uma organização amadora, de gente que gosta de cinema, que passa aqui muitas horas, o que, muitas vezes, resulta em falhas que poderiam ser evitadas com a existência de uma estrutura formal. Só para dar uma ideia do que se passa a esse nível, nós concorremos este ano a um estágio profissional do IEFP (Instituto do Emprego e Formação Profissional), cuja candidatura foi entregue em junho, mas que ainda não obteve resposta. Os estágios foram suspensos, depois deixaram de estar e, até agora, não há resultados. Este era um princípio de organização mais profissional do festival. Apesar de tudo, conseguimos manter o ritmo do festival, com mais visibilidade, com mais programação, com uma identidade renovada.

P – Apesar de tudo, o festival continua a afirmar-se?

R – E isso é visível quando, depois da seleção – chegaram-nos mais de 160 filmes para 65 títulos selecionados –, nós temos realizadores a quererem participar. O festival está com 10 dias de programação, com 65 filmes em competição e continua a manter o respeito pela sua identidade, o que implica, por exemplo, a presença de todos os realizadores, dos mais consagrados aos mais jovens.

P – O festival volta a apresentar as diversas sessões para lá da competição, apostando numa cada vez maior ligação à cidade?

R – Claro. Desde as habituais sessões de formação, às conferências a fazerem a ligação à retrospetiva do Cinema Novo, passando pelas after-party com programação musical portuguesa e a apresentação de novos talentos – nos Ensaios Visuais –, mas também os Caminhos do Cinema Europeu, este ano dedicados à Turquia, num novo espaço que é o Theatrix, onde fomos recebidos com toda a cordialidade. Com mais esta parceria, queremos também conquistar novos públicos. E depois, há ainda os Caminhos Juniores, dedicados aos mais novos, que tiveram uma forte adesão das escolas e vão, assim, mostrar filmes portugueses a alguns milhares de crianças.

P – O festival integra este ano uma retrospetiva dedicada ao Cinema Novo?

R – O conceito retrospetiva já não é novo no festival. A intenção desta surgiu um pouco a partir do tema de uma das conferências – “Do Cinema Novo ao cinema contemporâneo português”, com moderação de Jorge Granja –, com a exibição de filmes fundamentais como “Sofia e a educação sexual”, de Eduardo Geada, “Brandos costumes”, de Alberto Seixa Santos, “Perdido por cem”, de António Pedro Vasconcelos, “O cerco”, de António da Cunha Telles, e “Belarmino”, de Fernando Lopes.

P – Esta é uma área que estabelece uma ligação forte à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e ao seu curso de Estudos Artísticos?

R – Nós não podemos esquecer-nos do contexto académico em que o festival também existe. E há também cada vez mais pós-graduações na área da cultura e dos estudos artísticos. E esse é um foco de interesse que nós não podemos esquecer.

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