Bem me quer, mal me quer

Muito se fala sobre a credibilidade do governo PS. Em democracia, em todos os momentos, são atacados os governos. Sempre com o mesmo motivo: a conquista do poder por parte da oposição. E é evidente que, dada a importância da governação, a cobiça por ela suscitada é imensa, e não pode ficar imune à planificação que os partidos políticos fazem desse mesmo objectivo.

É neste combate político permanente que reside a grande riqueza democrática, umas vezes sobre a capa ideológica e a concepção doutrinária, outras vezes para mascarar a intervenção partidocrática dos militantes, sempre ávidos por um prato de lentilhas, num equilíbrio “governativo” que dificilmente encontram neles próprios (partidos).

É esta a realidade política que a mim me parece importante que os eleitores se apercebam; tanto mais que, no que concerne ao governo em funções e na motivação dos ataques de que é alvo, nomeadamente quanto à credibilidade do primeiro-ministro (José Sócrates), nada muda tanto quanto se pensa. O que muda são as perguntas que lhe fazemos.

E não se vê que o simples anúncio de uma nova política governativa protagonizada pelo PSD, ou por uma putativa coligação partidária, crie logo a velocidade dessa mesma política. Dito isto, estaremos preparados para eleições legislativas antecipadas – como? Em que sentido? É esse o erro: haver a ideia que se pode avançar um passo, e depois parar quando se quisesse.

Bem sei: alegam-se o exemplo inglês, alemão, países nórdicos, governados por coligações partidárias (governos maioritários de base parlamentar). Nada mais errado. Há que ter em atenção não haver qualquer analogia com a situação portuguesa e a desses países. Porque esses países têm grandes recursos financeiros, económicos, técnicos, científicos, industriais.

Mais, ainda. Digam-me uma coisa: acham que com um novo governo, saído ou não de eleições antecipadas, iam cessar os ataques e ficar silenciosos e quietos aqueles a que a dura realidade económico-financeira do país afecta? Sinceramente, alguém pode achar isso? Todos nós sabemos que não. Todos fingimos não o saber.

É sintomático, é significativo que, segundo parece, esse problema da credibilidade do governo (personalizada no primeiro-ministro) ande no espírito da generalidade da opinião publicada. Julgo muito grave que a acusação esteja exposta. Ela traduz, antes de mais, dúvidas quanto às origens (raízes concretas); e depois traduz dúvidas quanto aos objectivos. E tenho também observado que esse problema é posto precisamente por aqueles que sobre a matéria (credibilidade) deixam muito a desejar; caso contrário, e se apenas agora se apercebem e dão enfoque a tal problemática, é de lamentar a ligeireza dos seus procedimentos anteriores.

Decerto: tudo isto quererá dizer que há efectivamente um colapso de valores e princípios democráticos que, quer se queira quer não, não pode ser imputável ao Governo, nem ao primeiro-ministro (foram eleitos para cumprir uma legislatura de quatro anos).

Razão tinha Sertório (século II/I a.C.) quando afirmou: “na parte mais ocidental da Ibéria existe um povo que não se governa, nem deixa governar”. Pronto, ponto final.

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