A pobreza hoje e a obra assistencial da Rainha Santa

No nosso país vivem, actualmente, mais de dois milhões de pessoas em situação de pobreza. E, neste número, não se incluem aqueles designados por “pobres envergonhados” que, gradualmente e por mor da crise, entram numa espiral de perda de rendimentos e, naturalmente, naquela situação.

Recuando ao tempo da Rainha Santa Isabel, mas sem pretendermos relacionar a situação de pobreza daquela época e a existente nos nossos dias, verificamos que a padroeira de Coimbra soube minorar o infortúnio dos mais desfavorecidos e abandonados, auxiliando-os e distribuindo parte dos seus bens para os aliviar da miséria, da marginalização, da doença e da desventura familiar.

D. Isabel sentia, também, particular estima por aqueles que tendo usufruído de desafogada situação, pelos mais diversos motivos, caíram na pobreza e escondiam a sua desdita, os “pobres envergonhados”, de hoje. Não hesitava em os socorrer, oferecendo-lhes donativos com a delicadeza que não fere a dignidade humana. Por outro lado, interessava-se pela miséria moral que grassava nas raparigas pobres e expostas aos mais diversos perigos. Recolhi-as, por vezes, nas dependências do palácio. Procurava arranjar-lhes casamento e dotava-as com bens do seu patrimóni

Fora de Coimbra fundou em Santarém, com o Bispo D. Martinho da Guarda, o Hospital dos Inocentes para a educação de crianças abandonadas, a quem, depois de instruídas no ofício, arranjava colocação. Em Leiria, criou um Hospício somente para senhoras que tivessem caído em pobreza depois de uma vida confortável. Fundou, também, em Coimbra, uma Casa de Regeneração, que transferiu para Torres Novas, pretendendo afastar as internadas do lugar da perdição, como se dizia.

E, nesta sua cidade, doou bens ao seu Mosteiro e mandou construir em frente ao Paço, após a morte do marido, Dom Dinis, um edifício que destinou a Hospício para pobres, depois de obtida, em 1322, a autorização do Papa. No regulamento expressou que os pobres ali internados, em número de trinta, quinze de cada sexo, fossem admitidos pela Abadessa, terem a idade superior a 50 anos, serem honestos, de boa moral e de pobreza comprovada. Determinou, ainda, que estivessem sempre no Hospício duas freiras não obrigadas a clausura, e que um capelão fosse, diariamente, à capela rezar ofícios divinos a que todos deveriam assistir.

Aos asilados distribuíam, diariamente, trinta e duas onças de pão, uma caneca de vinho, dois arratéis de carne de carneiro, porco ou vaca, excepto nos dias de abstinência em que o peixe substituía a carne. Se algum adoecesse usufruía de dieta adequada. Na data de admissão recebiam da Abadessa um colchão, uma colcha, um travesseiro e cobertores e, anualmente, peças novas de vestuário. Solicitou, ainda, ao Rei D. Afonso IV, seu filho, em 1329, autorização para adquirir bens no total de 1.300 libras, que beneficiaram a Instituição até morrer. O Hospício abriu as portas na época em que a fome e a miséria tingiam a Península Ibérica e os famintos procuravam o coração amantíssimo e caritativo daquela a quem chamavam, já, de santa.

O Hospício resistiu até cerca de 1600, embora abandonado, como sabemos, pela acção destruidora das cheias do Mondego. Mas, não seguia, já, o regulamento de Dona Isabel, limitando-se, segundo o Padre Pedro João Perpiniano, a dar morada por esmola a alguns pobres e a alimentar doze mulheres indigentes à custa dos bens deixados pela Rainha ao Hospício. E, assim, desapareceu, gradualmente, uma das muitas e exemplares obras de assistência criadas por Santa Isabel.

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