A cultura é que dura

«Há uma mulher em Espanha que é um fenómeno mediático. É famosa apenas pela sua ignorância cósmica e por dizer os maiores disparates. No entanto, uma sondagem feita numa rádio determinou que muitos espanhóis votariam nela para primeira-ministra».

Quem o conta é Fernando Savater, no Expresso de 30/10. Como sabem, Savater é filósofo e professor de ética, com obra importante, famoso ainda pela sua intervenção cívica corajosa, mesmo arriscada, tendo em vista as suas posições relativamente à ETA.

A ideia era a da péssima influência que a ignorância provoca na causa pública e a necessidade de as pessoas terem informação razoável e algum sentido crítico para ajudar as democracias a funcionar bem e os povos a progredir em paz e justiça.

Todos nós conhecemos casos parecidos, e é de crer que algumas pessoas, cujo mérito é serem vistas e darem-se a ver em certos meios, teriam também o voto de muitos portugueses para a governação do País, por muito parvas que sejam.

Todos conhecemos agora o caso do palhaço Tiririca – “Pior do que está não fica” – que nas últimas eleições brasileiras teve 1.000.300.000 votos e que, sem saber ler nem escrever – parece que tanto em sentido figurado como real – foi eleito deputado por Brasília. É o calcanhar de Aquiles das democracias: assentam sobre as maiorias, mas necessitam da cultura e do carácter dos cidadãos, que nem sempre têm disso o suficiente.

A informação disponível é hoje imensa e de fácil acesso, mas muita gente não a sabe utilizar e os meios para deformar factos e verdades são também ilimitados. Há ainda uma vulnerabilidade suplementar por causa do avassalador poder estupidificante das televisões, onde o objetivo parece ser, muitas vezes, a deseducação para todos.

A própria crença bacoca nos políticos de baixo nível resulta do mesmo problema: desinformação e falta de sentido crítico. Acreditar no impossível só é viável quando não se conhecem os dados, não se tem sentido da realidade, nem se compreende a complexidade dos problemas. É claro que os políticos não devem ir por esta via porque, a prazo, levará à descrença em tudo, até no que é sério e tem boas intenções, mas muitos fazem-no.

Tem havido muitas vezes um casamento – que acaba sempre mal mas em que se insiste – entre a ignorância ou distração dos cidadãos e a demagogia de muitos políticos. E seja dos governos, tentando iludir os factos ou prometendo a Lua, seja da oposição, criando falsos problemas, provocando confusões inúteis, criticando à toa e dando a entender que têm boas soluções para tudo.

Todos contribuem para deseducar, desorientar e desmotivar as pessoas. Não se pode esquecer o sentido educativo das atitudes e das situações, nem manejar a democracia com mãos toscas ou com luvas de ilusionista. É um cristal raro que exige delicadeza e sensibilidade na ponta dos dedos, para se manter limpo, transparente e não se transformar, com os safanões, num monte de cacos.

Alguém entregaria a orientação da seleção nacional de futebol a um fala-barato qualquer sem provas dadas? Não, ninguém o faria. Conclui, portanto, Savater: «… quando falamos de coisas sérias, falamos de futebol, e quando falamos de política tudo é possível» Ou seja, para muita gente todos os disparates se tornam aceitáveis quando se trata de política. E assim a tarefa de governar e engrandecer os povos vai sendo deixada aos piores.

É bom não esquecer, contudo, que a política é uma tarefa nobre e que temos que estar vigilantes para que não deixe de o ser. Infelizmente são inúmeros os ratos que entram nela por todos os buracos, mas deixamos nós de lhes dar caça quando entram na nossa despensa?

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*