“Do inconveniente de ter nascido”

Durante a tarde cruzei-me com uma aluna. Perguntou-me como andava, e eu, vagamente, deixei transparecer qualquer coisa com a vida. Perspicaz, apesar da sua juventude, sugeriu-me Cioran, pesado, amargo, mas experiente até ao tutano da noite em matéria de dor e de sofrimento.

À noite abro o correio eletrónico e deparo-me com um livro do filósofo, versão francesa, amavelmente enviado pela aluna. Percebi o seu gesto. Ao mesmo tempo fez-me recordar que tinha adquirido há pouco tempo um livro do autor, a versão portuguesa, “Do inconveniente de ter nascido”. Fui obrigado a procurá-lo e, com muita dificuldade, acabei por o encontrar num monte perdido. Tinha lido apenas algumas passagens. São muitos aforismos e fragmentos, curtos, incisivos, profundos, dolorosos e estimuladores da criação de novas ideias. Um deles, por acaso um dos mais longos, chamou-me novamente a atenção: “Nós não corremos em direção à morte; fugimos da catástrofe do nascimento, agitamo-nos como sobreviventes que procuram esquecê-lo. O medo da morte é apenas a projeção no futuro de um medo que remonta ao primeiro instante. Repugna-nos, claro está, chamar flagelo ao nascimento; não inculcaram em nós que era ele o supremo bem, que o pior se situava no fim e não no início da nossa carreira? O mal, o verdadeiro mal, está porém atrás, e não à nossa frente…”.

A releitura deste fragmento fez-me recordar certas pessoas que, quando confrontadas com situações graves, amaldiçoam o facto de terem nascido. Mas as associações não ficaram por aqui. Um pequeno episódio ocorrido num programa televisivo acabou, também, por bailar. O apresentador, a propósito de qualquer coisa que não consigo reproduzir, presumo que estaria relacionado com o desejo de ter filhos – um desvio inusitado do programa de entretenimento -, perguntou à senhora se já tinha pensado que um dia, o tão ambicionado ser iria sofrer e morrer. Achava bem? Calaram-se ambos. Passados dois a três prolongados segundos, o programa continuou com gargalhadas e boa disposição à mistura. Mas a pergunta continua viva e a incomodar. A terceira associação prende-se com um interessante artigo de opinião, de António Vaquero, em que é comentado as “Últimas notícias sobre Deus e o Universo”. Tudo por causa de Stephen Hawking que, há pouco tempo, afirmou: “o universo criou-se do nada”. Sendo assim, Deus não é preciso.

A confusão entre ciência e religião é cada vez maior. O melhor é separá-las definitivamente. Não deixar que os teólogos se metam com a física e que os físicos não se armem em teólogos. Mas parece que ambos têm uma apetência, e até necessidade, para se enfiarem em áreas que não são as suas. Uns caem no Paradoxo de Deus e outros no Paradoxo do Universo. Aquela coisa do Bing Bang, um acontecimento em que muitos veem a mão divina e outros uma singularidade, faz-me lembrar o conceito “a catástrofe do nascimento” de Cioran. Só que aqui, nascimento do universo, os sobreviventes, muito agitados, não procuram esquecer, antes pelo contrário; querem saber o antes e como tudo começou. Não conseguem? Claro que não, porque o “mal vem de trás”, um mal que se chama inteligência humana, que pode servir para alguma coisita, mas não deixa de ser limitada, porque nada invalida que não haja outras formas de inteligência capazes de ver, de sentir e de explicar o que para nós é inexplicável. Sendo assim, para que serve a nossa pobre e limitada inteligência? Basta ver o que andamos a fazer, como resolvemos os problemas e interpretamos os acontecimentos. Razões mais do que suficientes para justificar o “Do inconveniente de ter nascido”…

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