Universidade do Centro

Sempre entendi que é nas alturas críticas, quando tudo corre mal, que devemos ter coragem de lançar as reformas difíceis ou mais ousadas. São elas o único caminho para a saída da crise, pelo que significam em termos de ruptura com o passado e de esperança num futuro diferente. Como todas as reformas o sucesso depende da vontade dos agentes que estão no terreno e resulta do encontro feliz entre a vontade superior e o movimento de base.Vem isto a propósito da situação actual do país e da necessidade de efectuar reformas profundas notamanho e organização do Estado. Ao nível do ensino superior temos, pela primeira vez, uma oportunidade de ouro de racionalizar o sistema, acabar com as redundâncias, diminuir desperdícios e promover uma estratégia de desenvolvimento integrada, focada em áreas de excelência com elevada densidade de recursos humanos de qualidade.

É, por exemplo, inaceitável que existam 12 cursos superiores de Bioquímica num território com a dimensão de Portugal , só para falar na minha área científica, tal como é obscena a existência de cursos de Educação Básica em cada capital de distrito e ainda em Fafe, Torres Novas, Felgueiras, Arcozelo, entre outros povoados, num total de… 34 instituições!

Reconhecendo que a reforma deve ser pensada no âmbito nacional, parece-me, contudo, mais fácil implementá-la a partir de uma base regional que se articule, num segundo momento, com o todo nacional. Neste contexto agrupar todo o ensino universitário da região Centro numa única universidade com três campus – Aveiro, Coimbra e Covilhã – seria um excelente ponto de partida.

Desiludam-se aqueles que pensam que a história, tradição e valores de cada uma das actuais universidades se perderiam nesta reestruturação. Na Califórnia, onde se concentram algumas das melhores universidades do mundo, o sistema está organizado de forma semelhante: uma única universidade (UniversityofCalifornia) com dez campus espalhados pelo Estado (Berkeley, Davis, Irvine, Los Angeles, Merced, Riverside, SanDiego, San Francisco, Santa Barbar e Santa Cruz). Partilham a missão, serviços de apoio social, medico, financeiro e prolongam a sua intervenção a centros de investigação, museus e parques de ciência e tecnologia da Califórnia, sem perder a sua identidade e o reconhecimento internacional.

A Universidade do Centro permitiria racionalizar todos os serviços de apoio e acabar com redundâncias de oferta formativa perfeitamente injustificáveis. Permitiria também ganhar massa crítica em certas áreas cientificas que seriam desenvolvidas apenas num dos campus. Mais qualidade e foco de acção por menos custo.

A reforma teria custos sociais elevados porque implica desemprego e mobilidade, mas quem melhor do que os docentes do ensino superior para encontrarem alternativas profissionais que criem valor económico. Do ponto de vista teórico são os mais preparados, a não ser que o mundo virtual das nossas universidades os tenha afastado tanto da realidade que já não consigam adaptar-se ao mundo real. Mas, se assim for, também não merecem estar na Nova Universidade…

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