Seabra Santos em entrevista

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P – Deixa a reitoria dentro de três meses, ao fim de oito anos no cargo, porque a lei assim o impõe. Caso contrário ponderava continuar?

R – Não. Penso que a lei é muito sensata quando prevê a limitação de mandatos. Não é bom que as pessoas se perpetuem nos cargos, o que é, muitas vezes, uma tentação daqueles que os ocupam. Não é o caso.

P – Quer dizer que a missão está cumprida?

R – Há sempre muito que se faz e muito que fica por fazer. Saio satisfeito comigo e com as pessoas que me acompanharam. Tenho consciência de que hoje a Universidade de Coimbra está uns furos acima da universidade que encontrei quando iniciei o meu trabalho e fico contente por ter conseguido cumprir um conjunto de grandes iniciativas.

P – Quais foram as principais dificuldades?

R – Num cargo desta natureza temos que manter uma capacidade de distanciação dos problemas que nos permita equilibrar a ação do dia a dia – de forma a dar resposta às questões que vão surgindo, todas elas urgentes – com a necessidade de prosseguir uma agenda autónoma, própria, de iniciativas estruturantes, que deixem uma marca perene na universidade.

P – Que marcas deixa?

R – Uma nova abertura da universidade ao exterior. É patente que se aproveitou muito bem um trabalho que já vinha de trás e que tenho a honra de ter desenvolvido, à minha maneira, é verdade, mas com o apoio de toda a comunidade universitária. Sinto-me apenas um elo de uma cadeia que começou há mais de 700 anos. Agora vou entregar ao meu sucessor uma universidade saudável e preparada para o futuro.

P – Entretanto muitas mudanças vertiginosas ocorreram na sociedade?

R – De fora da universidade vieram, de facto, estímulos importantes. Desde logo o Processo de Bolonha que surgiu com o objetivo de fazer a articulação do ensino superior em vários países e que, a par da reorganização pedagógica e administrativa e de questões como a avaliação – docente, não docente e institucional – representou um desafio muito importante.

P – Mas que está longe de dar resultados?

R – Em termos globais, já resultou em certa medida, embora esteja longe da conclusão e, portanto, longe de resultar em plenitude. As primeiras metas foram definidas em Lisboa para serem alcançadas no ano de 2010 e todos já percebemos que foram ambiciosas demais. Mas, não é por isso que se devem considerar menos importantes e menos justas. A Agenda 2020, pela qual responde a União Europeia neste momento, é uma tentativa de adaptação desses objetivos, reafirmando a necessidade da criação da sociedade do conhecimento e do espaço europeu do ensino superior.

P – Foi difícil mobilizar os seus pares para estes desafios?

R – Nunca. Creio que isso resulta do facto de, durante estes anos, termos vivido uma forte evolução geracional e a universidade estar amadurecida para aceitar as reformas e as mudanças profundas a que foi submetida. Todos perceberam – professores, alunos e funcionários não docentes – que o tempo em que as coisas nos vinham ter às mãos já passou. Agora é preciso ir à procura.

P – Deixa uma marca de abertura ao exterior, de internacionalização, de requalificação de património, mas alguns observam que relegou para segundo plano a investigação?

R – Devemos estar sempre atentos às críticas… Fui eu que nomeei, pela primeira vez na história da universidade, um vice-reitor para a área da Investigação Científica. Não um pró-reitor, mas um vice-reitor. Ao mesmo tempo, no respeito pelas autonomias das faculdades, criei estruturas que pudessem ajudar. Não se pode esperar que seja na dependência direta da reitoria que se faz investigação científica, nem é desejável que assim seja, mas avançámos para a criação de quatro unidades orgânicas de investigação ou de ensino e investigação: o Colégio das Artes, o Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde, o Tribunal Universitário Judicial e Europeu, a dar os primeiros passos com a futura instalação no Colégio da Trindade…

P – E que deverá abrir no final do ano…

R – Ainda não. Eu sei que ficou essa ideia das minhas palavras da sessão solene de abertura das aulas, mas o que eu pretendi dizer é que a capela do colégio está a ser recuperada e prepara-se para ter o esplendor de outrora. As restantes obras estão, agora, em causa devido às limitações drásticas de investimento impostas, sem sabermos se temos capacidade legal para lançar as empreitadas.

P – Falou em quatro unidades orgânicas de investigação criadas, falta a quarta…

R – É o Instituto de Investigação Interdisciplinar [3 III], que agrupa de forma articulada todas as unidades de investigação científica, sejam elas diretamente relacionadas com a universidade ou instituições privadas sem fins lucrativos de que a universidade é sócia. O 3 III também é unidade de formação, com programas de doutoramento já iniciados neste âmbito, o que transforma esta unidade numa verdadeira escola doutoral.

P – Há resultados mensuráveis dessa aposta?

R – Temos constatado que as nossas classificações em termos internacionais, e no âmbito da Fundação para a Ciência e Tecnologia, têm evoluído de forma positiva, em que todas as universidades portuguesas estão a fazer o seu trabalho.

P – Logo no início do seu primeiro mandato, entre maio de 2003 e até 2005, houve uma cerca efervescência estudantil com a greve académica e aquilo a que chamou “a doença dos cadeados”. Foi difícil controlar a situação?

R – Foi o momento mais difícil destes oito anos de reitor. As decisões que tomei foram muito bem acompanhadas pela generalidade da comunidade universitária. Os estudantes, na sua maioria, independentemente da justeza dos seus argumentos, compreenderam que os métodos utilizados nos protestos estavam errados e que o pequeno grupo que executou ações mais radicais e impensáveis punha em causa a dignidade da instituição. A ideia de fechar as portas a cadeado era algo que me era, e é, insuportável. Desde aí, os estudantes mostraram que podem utilizar outros métodos para fazer valer os seus pontos de vista.

One Comment

  1. Henrique Costa says:

    Não estou a perceber… na mais completa avaliação internacional de universidades que eu conheço e penso que em todas as outras a UC desceu este ano. Isto agora é moda em Portugal, seguir o Sócrates e negar o óbvio?

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