Pela transparência do dia, contra a calada da noite

À geração que há mais de meio século se bateu até ao sacrifício supremo – na altura do 25 de Abril/74 foram sublinhados os desígnios porque tinha valido a pena ser-se político (entre parêntesis – obrigado Vasco da Gama Fernandes por me teres iniciado em tais andanças) – a defesa da liberdade política; a defesa do pluralismo democrático; a organização geral da sociedade dentro de uma disciplina do poder que garantisse a concórdia pela lei e pelo direito (Estado de Direito), e permitisse instituir uma cooperação interna construtiva, eram os grandes desígnios.

Na perspectiva de 36 anos decorridos, e do início de mais um século, haverá que se reconhecer que existe como que uma qualquer coisa que pode frustrar os objectivos, destruir os sonhos, quebrar as esperanças: o povo está perplexo: e sentem que é um mistério o seu futuro. Não é apenas pela dificuldade de compreender aquelas ideias, aqueles ideais, nem pelos obstáculos à sua ressonância que se identifica a crise.

Estamos perante uma crise de todos os conceitos, princípios, valores, normas – e em toda a parte (o caso das eleições internas na Federação Distrital do PS em Coimbra é um exemplo).

Está em jogo a autoridade do Estado e sobretudo o seu limite e a definição da sua fonte – há quem defenda e regionalização de um rectângulo exíguo (!), há quem ponha em causa toda e qualquer medida governativa por não haver maioria absoluta na Assembleia da República (!); diz-se estar em causa a liberdade de expressão, principalmente o seu conteúdo e a sua garantia, quando, é certo, tudo se diz e publica seja verdade ou mentira; não se identifica cada medida da justiça à luz da jurisprudência mas à luz de casos avulsos resultando não haver consenso quanto à sua independência; não há decoro quanto à linha divisória entre verborreia insultuosa e acto político, ofensas pessoais em detrimento de debate substantivo na Assembleia da República, sanção política punitiva resultado de iniquidade individual, de justiça social, distribuição de riqueza e parasitismo partidário, chefia política e ditadura aparelhistica partidária, estratégia de Governo e estratégia de poder pessoal, administração e proteccionismo político-partidário; e através de tudo a fronteira entre eleitor e eleito nas estruturas partidárias é fluida, incerta, oscilante, e constitui um enigma que não se penetra nem se explica.

Em suma: neste princípio do século (100 anos de regime republicano), direi que estamos perante um problema: o da revisão dos conceitos políticos, do processo de convívio entre os partidos políticos e os eleitores, ou seja, dos padrões de valores das estruturas partidárias que os legitimam.

Parafraseando Victor Batista, pela “calada da noite”, nos partidos os militantes atropelam-se uns aos outros, pela transparência do dia, eu, que não sou militante partidário PS, pugno para que este venha a ser reconhecido como um partido de eleitores – lato sensu.

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