O mais fundo da crise

Uma professora universitária, competente, dinâmica, desempoeirada e, além disso, pessoa brilhante e de grande qualidade moral, anda desanimadíssima dizendo que não pode mais com muitos dos alunos que tem agora.

Conversam continuamente nas aulas, não ligam nenhuma às advertências, não sabem coisas elementares nem mostram interesse em saber e são até insolentes e grosseiros. De tal modo que já uma vez ou outra abandonou a aula por não poder suportar mais o ambiente. E não são alunos do 1º ano, mas do mestrado pós Bolonha, ou seja, são licenciados e com vários anos de Faculdade.

Não sei se o quadro é geral, mas não será único e sei que, neste caso, não é por deficiência da professora.

Ora, isto é um alarmante sinal de que a nossa crise é ainda mais profunda do que se diz. Sempre houve alunos desleixados e poucos dados ao estudo – a boémia académica está cheia de estudantes bragantes e de inúmeras histórias de uma certa “jumentude esturdiosa”. Mas eram muito menos que hoje e tinham educação, o que permitia que as coisas funcionassem e os maus não impediam os outros de aprender, como hoje acontece.

Era inevitável, dirão os professores do Básico e do Secundário, já há alguns anos que eles estão a passar por nós, teriam que chegar às universidades. Não era possível que os alunos se tornassem educados e trabalhadores de um dia para o outro e só por terem entrado no ensino superior. Mas, como é possível desenvolver um país quando muitos jovens licenciados entram na vida prática sem formação científica, cultural e humana, porque a recusam? Eis a maior de todas as crises.

Para além de muitas causas para esta situação, acresce que há formas de receção aos caloiros que fazem muitos estragos logo à entrada. Há uma tradição que se compraz em desacreditar o estudo, os professores e o trabalho, estragando alunos que vinham com bons hábitos do Secundário.

É uma mentalidade fora da realidade, que já passou o prazo de validade mas, como os seus promotores o não percebem, continua a sua acção corrosiva. É óbvio que a Europa está em crise, ou pior, em decadência – vejam-se as greves em França e os motivos por que se fazem. Mas a esta decadência europeia vem juntar-se a desgraçada mistura portuguesa de incultura e da alegre valorização dela.

O que pode esperar um país que partiu tão tarde para a formação da população, com o resto da Europa muito à frente, e que mantém, nas suas tradições académicas, formas de iniciação que desvalorizam o estudo e o trabalho e que as festas contínuas transformam em transtorno? São hábitos que vêm do tempo em que os universitários eram uma minoria, e a preparação académica, mesmo quando medíocre, dava para as necessidades de um país atrasado, pouco exigente e sem concorrência externa. Hoje, porém, tudo está a mudar.

Com a globalização de economias, conhecimentos, trabalhadores e especialistas, mais a emergência de populações que lutam também por uma vida decente, o formigueiro dos que estudam e trabalham a sério procurando promover-se é imenso por todo o lado. Ou seja, a preparação dos portugueses é cada vez mais necessária, não só para fazer progredir o país, mas também para garantir profissionais competentes, que se aguentem perante os problemas e a concorrência dos estrangeiros. Pois bem, as nossas associações académicas ainda não perceberam isso e têm sobre os processos de integração, alienante, dos caloiros, um olhar complacente que não ajuda em nada. É tempo de receber os novos alunos doutra maneira.

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