O 5 de Outubro

Cresci a ouvir falar do 5 de Outubro e dos teimavam em lembrá-lo como se fossem gente de outro tempo. Também a monarquia era então uma coisa longínqua. Tudo parecia justificar o tempo de miséria e de repressão em que aconteciam os nossos dias. Tudo nos fazia crer que a República era coisa que não tinha resultado. Ninguém aparecia a defender a Monarquia e vivíamos um salazarismo que reprimia e censurava. Ninguém nessa altura nos falava da queda fragorosa da monarquia como o fazia Joaquim Leitão, que sublinhava que “à maneira que descíamos o país, víamos continuar a descensão dos esteios da Monarquia; e desapareceu então, de nós, o propósito de cobrirmos com a caridade do nosso silêncio essa entrega do governo civil de Coimbra.” Este jornalista monárquico mostrava assim como já ninguém apostava na manutenção da Monarquia para que arriscasse uma palavra, quanto mais uma vida num combate em que a determinação dos populares lhe determinaram a sorte.

Na verdade, este livro de Joaquim Leitão mostra como a Monarquia caiu com um abanão como se fosse uma árvore muito carcomida. Outros livros, expressando o ponto de vista dos republicanos, mostram que o suicídio do Almirante Republicano Cândido dos Reis tinha razões nas incertezas dos que implantaram a República. No final, tudo se resolveu em pouco mais de dois dias, mas as esperanças de uma República que tinha nos trabalhadores e nos revolucionários civis os mais sólidos esteios, cedo se esvaíram. E só porque os seus próceres não quiseram assumir uma aliança com os que tinham arriscado a vida para implantar a República e que a defenderam em múltiplas circunstâncias em que esteve em perigo. Também as esperanças das mulheres, que tinham apostado na República, foram defraudadas. Claro que os monárquicos apostaram nesta fragilidade, e no fim assistimos à emergência de fascismos que cedo esqueceram que tinham defendido a monarquia, transformando-se em poderes pessoais. Foi o caso do Salazarismo e do Hitlerismo.

Estavam com certeza lembrados da forma como caiu Primo de Rivera. Sentiam que o fascismo italiano era frágil porque dependia do Rei. Também o Franquismo só entregou o poder ao Rei quando a vida do Generalíssimo já se aproximava do fim. Também a certo momento os Integralistas Lusitanos deixaram de acreditar no Salazarismo, apostando em Humberto Delgado.

Esta dolorosa experiência de uma Europa entre o fascismo e a democracia, veio provar que a República e a Monarquia podiam coexistir formalmente com um e outro regímen. Contudo, a República sempre assumiu como marca distintiva a democracia, mas afastou-se dela perigosamente deixando de fazer a defesa dos direitos dos trabalhadores. Foi o seu calcanhar de Aquiles. É o que agora passados cem anos sobre esta data libertadora não pode nem deve esquecer.

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