José Falcão

Comemorámos timidamente a República, esquecendo demasiado os grandes pensadores do republicanismo. Poucos falaram do seu comportamento cívico e por essa razão muitos jovens não chegaram a perceber o que se comemorou a 5 de Outubro. Foi com alguma surpresa que reparei que poucos tinham pensado no feriado e apesar de a televisão e a rádio terem referido esta efeméride.

Mas, tudo foi pouco para realçar figuras como José Falcão, que era recordado assim em 1908: “Passou anteontem o 15.º aniversário do passamento do Dr. José Falcão que foi lente de matemática da universidade e um dos chefes queridos da democracia portuguesa. Lembrar nomes como o de José Falcão é prestar homenagem àqueles que trabalharam pelo país, e que nos orientaram na senda salvadora”.

Na verdade, pouco se associou a ideia de República à de democracia, significando o 25 de Abril de 1974 a restauração das liberdades. Nem sequer se afirmou a República como a forma ideal de servir o país orientando-o numa senda salvadora. Muito pouco se falou sobre os grandes propósitos emancipadores que levaram José Falcão a escrever a Cartilha do Povo, publicada pela Imprensa Litteraria em Coimbra em 1884 e que teve diversas edições. Ninguém falou da força da ética republicana.

Como fruto do tempo difícil que vivemos falou-se bem mais do Banco Alimentar Parlamento, criado no Facebook, onde se promete que tudo o que entregarem no sábado dia 16 de Outubro ao Banco Alimentar Parlamento terá como destino a humilde residência do deputado Ricardo Gonçalves . Ironizava-se, mostrando como agora é bem diferente a postura dos que orientam os portugueses nas sendas salvadoras .

De facto, era bem diferente a postura de José Falcão. Trata-se só de mais uma brincadeira que ocupa saudavelmente o anonimato amargo e difícil das cidades, onde os cidadãos estão preocupados com a sobrevivência familiar e pessoal num dia-a-dia cada vez mais amargo, ou seja, trata-se só de uma acção cívica em que “Ridendo castigat mores”. Contudo, podemos agradecer ao deputado Ricardo Gonçalves este momento de descompressão e de expressão do amedrontamento, que nos invade perante o futuro difícil, que todos antevemos. Mais uma vez a Internet permite uma democracia efectiva e que, com a manipulação despudorada a que assistimos, não era de outro modo possível.

Contudo, nada substitui a acção efectiva dos cidadãos no esclarecimento de todos os seus concidadãos, agora inserido num mundo global, pois os governos só procuram castigar os que trabalham honestamente, obrigando as respostas sindicais a serem cada vez mais concertadas por serem também concertadas as medidas de política europeias e mundiais. E falhando agora a presença de homens que trabalharam pelo país, e que nos orientaram na senda salvadora, recordá-los e cumprir os seus objectivos de vida, é o remédio para o desastre a que a ganância desmedida de gente sem princípios nos conduziu.

One Comment

  1. ana catarina says:

    José Falcão pertenceu à «Geração Coimbrã de 62», a mesma de Antero de Quental e Eça de Queirós (ver obra de Luís Dantas). O seu livro sobre a Comuna de Paris foi proíbido. Mas as suas ideias continuaram a influenciar a marcha democrática da sociedade portuguesa. Hoje, mais do que nunca, temos de prestar homenagem a esses homens que tinham valores e que não se esqueciam do povo.

    Ana Catarina

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