Já que não se fala de outra coisa a não ser de números

Recentemente foi divulgado um estudo cujos resultados são bastante reveladores: a cada ano que passa, fraude, corrupção e desperdícios custam 56 mil milhões de Euros aos sistemas de saúde europeus. Em média, estes desvios correspondem a nada menos do que cerca de 6% dos orçamentos da saúde em cada país.

Este estudo revelou ainda outros dados importantes. É que apesar de todas as diferenças existentes entre os sistemas de saúde europeus, a fraude e a corrupção são elementos transversais a todos eles. Acrescem ainda os gastos associados a falta de coordenação, tratamentos desnecessários, sobreposições de diagnóstico e ineficácia. A política do medicamento e o aumento da contrafacção de medicamentos no espaço europeu também não ficam imunes no diagnóstico feito.

Não faltaram as vozes a dizer que a “culpa” era da má gestão pública dos sistemas nacionais de saúde. Valem-nos a história e a memória como importantes aliados: os números associados ao desperdício, à fraude e à corrupção aumentaram com o desmantelamento dos serviços públicos e a implementação crescente de sistemas de gestão hospitalar na base de parcerias público-privadas.

Basta-nos olhar para o que se tem passado em Portugal e a evidência quase fere o olhar. Na mesma semana em que o Tribunal de Contas arrasou a gestão privada do Grupo Mello em algumas das nossas unidades hospitalares, o governo de Sócrates decidiu entregar ao mesmo grupo a gestão de um hospital em Braga.

É a insistência no erro que só torna as nossas vidas mais difíceis. Em vez de procurar soluções para a redução dos custos da saúde por uma via tão evidente como esta, o mesmo governo optou por colocar o peso nos ombros dos cidadãos através do aumento do preço dos medicamentos e tornando o acesso à saúde mais caro para todos. Pagam mais aqueles que mais precisam deles: idosos e pessoas de baixos rendimentos.

Estes são apenas alguns dos custos contabilizados em números. Faltam os ainda incalculáveis custos sociais das mais recentes medidas. Alguém quer fazer essas contas?

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