Com os sonhos na água

Adormecera. Cansado, mergulhara num sono pesado. Sonhava. Na sala de reunião da Câmara havia um ambiente estranho.

Como nos filmes, o meu sonho era cinzento, de regresso ao tempo da televisão da minha infância, envolto em nevoeiro. Uma cena de cinema decorria à minha frente. Uns senhores importantes defendiam uma proposta de fusão das empresas de água na região, enquanto uns outros encenavam uma representação entre o género comédia e a tragédia de péssima qualidade.

Um vereador, dirigente do PS, convidava em surdina o vereador da CDU a abandonar a sala da câmara, invocando que a maioria ficaria sem espaço de manobra, por falta de quórum. A votação não se poderia realizar. Mas só naquele dia, já que depois seria impossível evitá-la.

Preocupado, o edil circulava pela sala, fazendo contas e contas de cabeça. Naquele sonho, naquele dia, a maioria PSD dispunha de 5 vereadores na reunião do executivo municipal e as várias forças de oposição de outros 5. O voto de qualidade do presidente podia desempatar. À proposta em surdina de que acompanhasse os eleitos do PS em retirada, o vereador comunista não hesitara, respondendo de imediato que ao contrário do PS, useiro e vezeiro neste estratagema, os eleitos comunistas estão em órgãos autárquicos responsavelmente, para transmitirem as suas opiniões e votarem em consciência, derrotados ou vencedores.

Na anterior reunião do executivo municipal, o vereador da CDU criticara os vereadores do PS por terem abandonado a sala e se terem recusado a votar a proposta de referendo sobre a abertura das grandes superfícies nas tardes de domingos e feriados.

No sofá da sala, eu dormia ainda. O sonho prosseguia, cada vez mais estranho e cada vez mais real. A dormir, pensava que não era estranho que o PS adoptasse estes estratagemas. Os vereadores que criticavam pareciam interessados em deixar passar a proposta do PSD, consentânea com as propostas do governo. Do discurso percebia-se que desde que não saíssem “chamuscados” perante a opinião pública, estavam de alma e coração com a privatização do negócio da água, tal qual previsto pelo governo do seu partido. De repente, um vereador socialista dirigiu-se ao presidente da Câmara: “continuem lá as conversas e negociações… mas não nos façam votar…”

O sonho não estava a querer terminar. O vereador da CDU votava contra a fusão das empresas da água e afirmava-se contrário à prática de fuga da sala de reuniões, demissão em relação às matérias em discussão e à defesa dos interesses do concelho, acusava o PS de, recorrendo à postura de vereação em regime de “quando em vez”, fugir a questões difíceis. “Isto não é sério! É uma muito estranha forma de entender e exercer a democracia” – afirmava.

Foi então que eu acordei. “Que sonho!”, pensei. “Era lá possível uma situação destas!” Mas é!

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*