Afonso Penedo, o tanoeiro

Nesta fase de crise política – só não a vê quem não quer – importa distinguir dois partidos (correntes?) fundamentais: o Partido Social Democrata (PSD) e o Partido Socialista (PS).

Poder-se-ia talvez dizer que, no campo da alternativa governativa, o PSD pretende governar por meios económicos e de pressão (Estado Liberal) e que o PS prefere o uso da cultura, da penetração psicológica, da assimilação pelo espírito da solidariedade social (Estado Social).

Ambos formam a nossa realidade política. E poderá acaso pensar-se que o Bloco de Esquerda (BE) ou o Partido Comunista Português (PCP), nesta democracia liberal dos países desenvolvidos, poderão afirmar o seu desígnio e de ocupar posições políticas de alta consequência (Governo)? Não.

Por isso então se afirma, e com fundamento, que tem havido uma “neutralidade” política colaborante, responsável pela crise actual, aquela que pratica e tem mantido, o eleitor português: são todos iguais, os nossos políticos; e isso porque uns que votam PS e outros que votam PSD só procuram encontrar, neste comportamento eleitoral, uma falha, um senão que possam denunciar como quebra de promessas do outro; e será a propaganda feita por uns e por outros para aliciar o descontentamento da opinião pública que comanda o dia- -a-dia; não é o conflito ideológico que pretende aliciar os neutros a abandonar essa neutralidade. E esta só será viável graças a uma prática política dura e firme.

Dito isto, constata-se que, finalmente, nenhum complexo trava agora o PSD (liderança de Passos Coelho) neste particular, esta realidade é fundamento suficiente para que o PS (liderança de José Sócrates), confirme o trabalho feito e congregue essa prática política, sendo que nenhum prejuízo depreciativo pode resultar para qualquer um. Entraremos, pois, numa efectiva bipolarização política. E esta deverá encontrar o fórum apropriado na organização ou estrutura governativa a sair das eleições legislativas.

É evidente: estas (eleições) comportam mil aspectos, mil pormenores. Mas os programas e os planos em todos os domínios, valiosos e necessários como são, tem de ser vistos como efémeros, consoante as necessidades ocasionais ou iniciativas da União Europeia. Afigura-se indispensável, por isso, se se quiser prosseguir uma política governativa ampla e com eficácia e utilidade para todos, alicerçá-la em práticas afeiçoadas aos objectivos.

Pois bem. Se o PSD (liderado por Passos Coelho) e o PS (liderado por José Sócrates) não se desviarem do que até aqui protagonizam, Portugal possui, para já, recursos políticos: bastará que um ou o outro não se deixem inebriar ou limitar por preocupações de rentabilidade imediata, em termos eleitoralistas; se se abrirem à sociedade com absoluto desinteresse e lealdade, em termos de interesses materiais imediatos dos militantes partidários que, de militância política só têm a ambição do próprio umbigo, uma larga e rasgada cooperação nos terrenos político e cultural (paradigma de vida social) é de pensar que então poderemos ter êxito e afrentar, com sucesso a competição, a concorrência, acaso até a hostilidade de terceiros (especulação de mercados – divida soberana, por exemplo).

Mas se a cooperação do eleitor português puser o acento tónico, como tem sido, no campo da disputa de “caça ao homem”, será de recear que essa cooperação não seja um êxito – nem agora, nem a médio, nem sobretudo a longo prazo.

Seja-me, pois, permitido ser cruel. Afirma-nos Fernão Lopes, que perante a hesitação política, Afonso Penedo, um tanoeiro, pessoa modesta e de raiz plebeia, levou a mão à espada e disse que quem não quisesse outorgar como o povo, era mister que pagasse pela sua própria garganta, antes que dali saíssem. Segundo o cronista foi decisivo o argumento da espada. Pois bem. A nossa espada é o voto eleitoral. Foi usada em sucessivos actos eleitorais; a legislatura é de quatro anos. O povo a outorgou. Use-se o argumento da espada contra todos aqueles que procuram, sistematicamente, a destruição das elites políticas governativas.

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