A técnica mais “poética” da medicina moderna

Robert Edwards, na sua qualidade de estudante de doutoramento, começou a dedicar-se à biologia reprodutiva dos ratinhos estudando os ovos fertilizados numa proveta. Para conseguir os óvulos das ratinhas, que só conseguem ovular a meio da noite, o investigador tinha de se deslocar a horas pouco recomendáveis ao laboratório. Ao fim de três anos de visitas noturnas, conseguiu descobrir a maneira dos animais ovularem durante o dia. Com o tempo alcançou a proeza de fertilizar os óvulos de ratinhas em laboratório.

A partir daqui, pensou, e bem, tentar fazer o mesmo nos seres humanos. Depois de muita insistência, e com a preciosa ajuda de Patrick Steptoe, falecido em 1988, conseguiu aquilo que era impensável até então, a fertilização in vitro de óvulos humanos, depois de desmoronar muitas falsas ideias.

Desde o início que Robert Edwards sentiu, e de que maneira!, o peso dos obstáculos científicos, culturais e éticos. Mas conseguiu ultrapassá-los, permitindo desbravar o caminho para o nascimento de uma das maiores conquistas da humanidade: conseguir com que casais estéreis pudessem alcançar o impossível, ter filhos. Afinal ter filhos não depende de qualquer vontade divina. Tornou-se possível corrigir “erros” da Natureza, que nega a muitos casais a possibilidade de poderem ser pais.

Apesar de muitos detratores tentarem impedir que as técnicas de fertilização in vitro pudessem vingar, por serem contrárias a certos princípios religiosos, ao ponto de as designarem como iníquas, a fertilização in vitro veio propiciar a felicidade a muitos seres humanos. Haverá maior felicidade do que um casal ter filhos? Haverá força maior do que a satisfação do desejo da maternidade? Não. Até porque a espécie humana depende dessas vontades escritas profundamente nos genes e na alma.

É certo que muitos aspetos relacionados com estas técnicas são suscetíveis de provocarem conflitos éticos, por vezes não muito fáceis de resolver. De qualquer maneira o homem tem a responsabilidade de encarar todos os desafios que se lhe coloquem, sejam eles éticos ou morais, simples ou complexos.

São atributos da humanidade e só a humanidade é que tem o direito de os resolver. Por mais complexos e melindrosos que sejam os problemas éticos da procriação medicamente assistida é sempre possível resolvê-los. É o que está a acontecer neste momento em Portugal.

O Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida tem feito o seu trabalho de forma a garantir a qualidade, o respeito pela ética e, sobretudo, ir de encontro às necessidades de milhares de casais portugueses que sofrem de infertilidade, compartilhando das suas esperanças, esperanças que permitem caracterizar estas técnicas, tal como disse um colega meu do Conselho, como sendo “talvez a mais poética das técnicas da medicina moderna”. Eu vou mais longe: “É a mais poética de todas”. E se não fosse Robert Edwards talvez não estivéssemos na situação em que estamos: milhões de casais a amarem os seus filhos.

O prémio Nobel atribuído a Edwards é mais do que justo, e até tardio, e vem legitimar à escala mundial o feito da sua obra, persistência e genialidade, ao corrigir os “defeitos” da Natureza. Uma distinção que não é mais do que a coroação dos milhões de “prémios” que tem vindo a receber por esse mundo fora. Todos os dias recebe mais alguns…

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