A razão pela qual nada aprenderemos com a crise – Parte II

Retomando a análise sobre a aquilo que julgo ser a explicação do facto de qualquer crise se sentir com mais profundidade em Portugal, repito o que já disse noutros textos: não havendo homens providenciais, acho comodista e algo hipócrita que se culpem apenas os políticos.

Se é certo que muitos deles são movidos pela sedução do poder, pela ambição ou pela perspectiva de “dinheiro fácil”, também é verdade que muitos não são desonestos (seja por serem íntegros ou por não terem “categoria” para roubar). O problema é que os políticos saem do meio do povo que os elege. Por muito desfasados que, por vezes, pareçam, não são extra-terrestres vindos de outro planeta… Reflectem as nossas virtudes, mas, igualmente, os nossos defeitos. Também eles têm um ar pesado e vivem num mundo que já não existe (começa pela retórica parlamentar, onde ainda ouvimos “vossa excelência” seguida de pontapés na gramática e de enxovalhos pouco dignificantes). Acresce que também os políticos se tornam mais básicos e previsíveis à medida que os padrões de exigência do ensino se degradam e que as próprias mentes das novas gerações sofrem o empobrecimento ditado pelo progressivo abandono da cultura escrita, em detrimento da ruminação de conteúdos de televisivos e da exposição sem coordenadas éticas a tudo o que pode ver-se na Internet.

Colhe, por isso, sentido a frase de Maistre: “cada povo tem o governo que merece”!…

Dito isto, que fazer?

Com franqueza, esvai-se me a esperança. Para sairmos da crise permanente em que, com altinhos e fundões, vamos vivendo, era preciso que ganhássemos consciência colectiva, que abraçássemos o desígnio de sermos dos melhores países da Europa, que não buscássemos o suborno em lugar do cumprimento dos trâmites da lei, que não nos limitássemos a obedecer a esta por medo da punição, que tentássemos ser melhores em vez de invejarmos o sucesso alheio, que não favorecêssemos os graxistas e lacaios em vez dos críticos leais, que percebêssemos que o dinheiro deve advir do talento e da ética, que, em suma, fossemos decentes, trabalhadores e solidários…

Só se atingíssemos este “minus” da essência de uma nação, poderíamos ombrear com gente que se aplica, que tem orgulho na sua bandeira para além do futebol e que não aldraba ou que, quando o faz, tem a cadeia como destino certo.

Até lá merecemos alguns dos seguidores de Sócrates e Passos Coelho (ambos culpados menores de tudo isto). É uma pena justíssima!

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