A razão pela qual nada aprenderemos com a crise – parte I

À guisa de prelúdio, diria que as linhas que se seguem não devem ser vistas à luz de qualquer forma de autoflagelação; não considero que tenhamos que andar com a corda ao pescoço, qual Egas Moniz, ou de nos chicotearmos, enquanto gritamos kyrie eleison… Temos, isso sim, enquanto povo, de reflectir sobre a explicação profunda do estado de “crise permanente” em que vivemos, pois, mesmo antes desta marretada valente dos mercados internacionais, fica a sensação de que sempre viemos a afundar-nos alegremente.

Creio mesmo que o mais escandaloso neste luso atavismo e nesta nacional “choraminguice” é olharmos os países do antigo Bloco de Leste que, sujeitos a décadas de opressão soviética ou pró-soviética e muito mais recentes nas andanças da União Europeia, em menos de um fósforo, se colocaram ao nosso nível, quando não nos passaram mesmo nos números do desenvolvimento… Dou, assim, de barato exemplos repetidos à saciedade, como o caso da Finlândia que, mesmo sem os recursos naturais que nos queixamos de não ter (e até temos alguns que os finlandeses não têm, como sejam praias infindáveis e clima “para turistas” todo o ano), se guindou ao patamar cimeiro em que permanece, desde que me lembro.

Tudo isto para dizer algo simples: enquanto povo temos muita responsabilidade no estado de coisas a que chegámos, sendo os cortes nos vencimentos e pensões dos funcionários públicos, o aumento do IVA e todos os demais instrumentos de tortura que nos fustigarão a partir de 2011 consequências da insalubridade ética em que sempre apreciámos chafurdar.

Em vez de produzirmos mais e melhor, sempre preferimos empurrar o destino para a frente com a barriga; em vez de contestarmos solidariamente o que está errado, calámo-nos, esperando que a régua não açoite a nossa mão e que a promoção chegue a nós, mesmo que outros se quedem na injustiça; em vez de acharmos que houve um colega que mereceu mais do que nós “aquele lugar ou aumento”, logo congeminamos as razões do favoritismo (amizade, partido ou caso amoroso) e, o que é pior, por vezes, com razão…

Somos, por isso, tendencialmente invejosos, em vez de cultores de uma lógica de mérito. Mesmo muitos dos que nas autarquias, gabinetes de estudos e assessorias procuram mascarar a coisa com o uso de Powerpoint, ecrãs de LED com produções bonitas e, em suma, embalagens tecnologicamente atractivas e uma imagem de suposta competência despromovida de emoção (um subtil renascimento da propaganda totalitária), na verdade, continuam a alimentar “o grupo”, a dar oportunidades de negócios aos amigos e a executar sumariamente qualquer tolinho que sonhe com independência de espírito. Somos, também, fracos de alma…

Post- Scriptum (não é altura de escrever PS…): Interrompo a prosa (a continuar) para garantir que Pedro Passos Coelho é um líder genuíno. Espero, consequentemente, que não se deixe levar pelos jovens profissionais da política que, sob o escudo de muitos PDF e slideshows, tentam disfarçar a sede de poder instantâneo, colocando entraves à passagem do Orçamento, no PSD.

Podem até regurgitar sobre o documento, em directo, mas não é à toa nem pode ser conspiração o facto de três antigos Presidentes da República e de três ex-líderes do partido (Marcelo, Ferreira Leite e Mendes) recomendarem, a bem de Portugal, a viabilização do documento. Creio que Passos Coelho levará a indignação até à última, fechando os olhos ao horror orçamental, à última da hora. Só pode ser assim…

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