SNS: Arnaut lamenta “desumanização”

Após 31 anos de existência do Serviço Nacional de Saúde, o seu fundador, António Arnaut, lamenta a “desumanização” que subsiste em algumas unidades e apela a um “maior rigor” na gestão dos orçamentos para evitar “desperdícios”.

Em entrevista à agência Lusa, na véspera do Dia Nacional do SNS (15 de setembro), António Arnaut defende que nesta data “é preciso refletir não apenas sobre o modo de funcionamento, as dificuldades, os erros, as insuficiências, os benefícios e os méritos do SNS, mas também sobre as dificuldades encontradas” ao longo de três décadas.

Como utente e “pai” do SNS, confessa que a “desumanização que ainda subsiste em algumas unidades de saúde, apesar dos esforços para a eliminar”, é uma das “deficiências” que mais o “magoa, choca e incomoda”.

Esta situação acontece principalmente “nalguns serviços de urgência em que as pessoas se amontoam sem haver ninguém vestido com uma bata branca que venha ter com elas com uma palavra de compreensão e de solidariedade”.

“Ser médico, enfermeiro ou funcionário do SNS não é ser um mero funcionário público, é exercer uma função social com relevante incidência humanista”, salienta.

Por outro lado, defende que “é preciso mais rigor na gestão dos dinheiros: o SNS tem uma dotação razoável, e talvez não seja necessário gastar mais, mas é preciso gastar melhor e, sobretudo, eliminar parte do desperdício que o Tribunal de Contas reconheceu ter (25 por cento)”.

António Arnaut alerta também para o peso dos medicamentos nos orçamentos, apelando à adoção de ”medidas mais eficazes” para reduzir essa despesa.

“Os medicamentos levam um quarto dos gastos do SNS. Há medicação excessiva, assim como há meios complementares de diagnóstico desnecessários”, sustenta.

As listas de espera são outro problema, diz, defendendo “um esforço maior” para as reduzir.

O histórico socialista afirma ainda ser preciso “averiguar porque é que alguns médicos não podem prestar os cuidados de saúde nas unidades públicas e no mesmo dia os prestam nas unidades privadas onde trabalham simultaneamente, sendo o Estado a pagar as intervenções cirúrgicas”.

No Dia do SNS, instituído pela ministra da Saúde em 2008 por proposta de António Arnaut, o fundador do Serviço Nacional de Saúde diz que “profissionais, utentes e governantes” devem refletir sobre estas matérias.

“Também é preciso fazer uma pedagogia dos utentes para que tenham consciência dos seus deveres e não apenas dos seus direitos”, salienta.

Para Arnaut, os cidadãos têm de ser esclarecidos sobre o “grande esforço” do Estado para manter o SNS, “que representa o reconhecimento de um direito básico: o direito à saúde”.

“Os utentes do SNS também têm de saber os encargos que representam para o Estado”, sublinha.

Sobre as críticas à sustentabilidade do sistema, diz que “são tão antigas como o próprio Serviço Nacional de Saúde”.

“Quando se diz que o SNS é insustentável, é a mesma coisa que dizer que a democracia é insustentável porque o SNS é uma das bases da democracia do estado social”, frisa, rematando: “Se a saúde voltasse a ser paga conforme a capacidade de cada um, muita gente morreria de carência porque não tinha capacidade de acesso à saúde”.

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