Saudinha

A razão da minha erupção social-democrata em relação às ideias do PSD (artigo da semana passada) tem a ver com relatos como o de uma amiga, que passo a transcrever: “No seu 2.ºdia de férias, o meu pai sentiu-se mal, no 4.ºdia deu entrada no Hospital de Guimarães (Alto Ave) e começaram as 3 semanas mais longas da minha vida. Os cirurgiões e a equipa da medicina não estavam de acordo sobre o diagnóstico e o meu pai é sujeito a uma cirurgia de exploração, da qual resultou uma colcistite aguda e apendicite. A equipa da medicina tinha razão. Apesar de ser um doente cardíaco, tem alta 3 dias depois.

No dia em que recebe a alta, a sutura começa a infectar. 2 dias depois o meu pai vai ao hospital fazer o penso e a sutura continua infectada, apesar do gelo e do antibiótico. Feito o penso, é mandado para casa pálido e febril. Na viagem volta a sentir-se mal, no dia seguinte melhora, dois dias depois volta ao hospital para fazer novo penso. A minha mãe reclama que ele tem febre, que lhe parece muito cansado e depois de muito insistir acedem a fazer-lhe exames e descobrem que teve um enfarte do miocárdio no dia em que veio de fazer o penso. Fica internado novamente.

No dia seguinte vai para Vila Nova de Gaia fazer cateterismo, corrigem duas artérias obstruídas a 100% e fica uma obstruída em 99% para fazer noutro dia. Nesse dia não lhe fizeram o penso, no dia seguinte já exausta de tanto reclamar e desesperada com a febre e o mau aspecto da cicatriz, a minha mãe volta a pedir que seja examinada a sutura. Depois de muito reclamar fizeram-lhe a vontade e enviam o meu pai para a ecografia. A técnica diz que existe uma mancha estranha e pede tomografia para clarificar. O cirurgião discorda e diz que a técnica está errada e não existe nada e que vai ter alta no dia seguinte.

Mais uma vez a minha mãe volta a insistir e pede a uma segunda equipa de cirurgia uma segunda opinião. A segunda opinião revela-se acertada: um abcesso resultante da infecção. Levou duas unidades de sangue, porque estava muito debilitado e quando retiraram o abcesso saiu cerca de 60cm3 de lixo que estavam a destruir tudo por dentro. Isto significa apenas que se a minha mãe não fosse uma enfermeira competente o meu pai teria morrido de septicemia!!! (…)

(…) O que é mais estranho é que o meu pai é médico, trabalhou a vida inteira neste hospital acreditado e no momento em que ficou doente teve um tratamento superior ao de qualquer outra pessoa. Qualquer outra pessoa certamente teria morrido. (…)”.

Para pormos as coisas en su sitio, no ano passado, também eu tive um problema de saúde que pediu uma semana de hospital e devo dizer que a minha experiência nos Hospitais da Universidade de Coimbra terá sido oposta à que viveu esta minha amiga.

Ou seja, a mais de sorte, há que introduzir mecanismos que premeiem e avaliem a qualidade dos desempenhos, mas sem quotas estúpidas, sem compadrios e assédios imbecis e sem a mediocridade bem portuguesa que leva os de cima a temer a sombra de baixo (passo o paradoxo).

Porém a solução não é a privatização pura ou, simplesmente, o “quem pode paga”.

Claro que têm que ser revistos os custos! Eu podia ter pago mais, mas quanto às ideias do PSD… Seriam óptimas se não se traduzissem num desinvestimento na Saúde e antes resultassem numa canalização do mesmo bolo para melhorias; isto é, acresceria ao Orçamento do Estado os montantes que os menos carenciados pagassem. Porém, temo que se verificasse o mesmo que se passou com as propinas, que passaram a maquilhar o desinvestimento no ensino superior.

Como exemplo dou a África do Sul, onde o sistema público era óptimo, mas onde uma mera mudança de gestão levou a que as pessoas tenham medo de acabar num hospital público e onde quem pode paga colossais seguros de saúde, que mais não seja, para pôr um autocolante no vidro do carro, para os socorristas saberem, em caso de sinistro, que pode ir para uma clínica privada…

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