Muito mais do que números

O Primeiro-Ministro, José Sócrates, anunciou esta semana que quer atingir a meta de 40 por cento de pessoas com idades entre os 30-34 diplomadas no ensino superior até 2020. O objectivo é ambicioso mas necessário.

Nos últimos anos, é bem verdade, foram muitos os milhares de jovens portugueses que passaram a ingressar no Ensino Superior. Um aumento de 50 por cento no número de inscrições desde 2005, dizem as fontes oficiais. Ora, se por um lado este dado é bem revelador de um desenvolvimento social e económico crescente do país, por outro lado o número merece ser analisado.

Recordo bem que, no início da década de 90 – há vinte anos pois! – defendi com mais uns quantos colegas a criação de um “observatório para a vida activa” que se debruçasse sobre o mercado de trabalho e pudesse analisar as tendências e as necessidades estruturais do mundo laboral por forma dar pistas que orientassem a escolha dos cursos superiores. Já ao tempo se percebia que as fornadas de caloiros em Direito seriam mais tarde “carne para canhão”. E assim cresceram as faculdades de Direito nas Caldas da Raínha, em Lamego, na Figueira da Foz,…

Passado todo este tempo os jovens continuam sem apoio vocacional e sem orientação estratégica para optar pelo rumo mais adequado no ensino superior.

Dito assim – de forma fria – parece que este tipo de decisões não devem obedecer a outros critérios que não os racionais. Obviamente, que em primeiro lugar devemos optar por aquilo que tendencialmente nos trará maior felicidade pela realização profissional associada; todavia, se pudermos juntar o útil ao agradável, o mesmo é dizer a alegria e a opção certa no mercado, tanto melhor. Ou seja, dificilmente alguém alcançará a felicidade no desemprego…

Portugal é sabido que precisa de mais diplomados. Mais licenciados significa (teoricamente) gente mais bem preparada. Mas o nosso país não precisa de todo o tipo de licenciados. Uma análise ao mercado de trabalho rapidamente nos informa que há sectores onde somos deficitários e outros tantos excedentários. Logo, importa perceber para onde queremos ir enquanto país e criar mecanismos para influenciar a formação e as escolhas dos mais jovens.

Repare-se no grave exemplo da medicina: faltam-nos os médicos e ainda assim o ingresso na universidade continua a ser deficitário pelo elevado “numerus clausus”. Este erro deveria ser reparado e não replicado.

Nos países mais desenvolvidos estão a fazer-se apostas inequívocas – com políticas públicas claras! – de incentivo ao estudo das ciências exactas, assentes em novos métodos que têm nas novas tecnologias as ferrramentas necessárias, de modo a responder às novas necessidades de um mercado de trabalho que agora é global e em transformação. Portugal deveria seguir por aí para que em 2020 os tais 40% de licenciados fossem mais do que meros números!

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