Antes que seja tarde

Sarkozy lá em terras de França anda a correr com os ciganos, devolvendo-os à procedência. Diz-se que boa parte da Europa se vê a braços com milhões de imigrantes oriundos da Roménia, de países do Leste ou do Norte de África. Em tempo de crise, os primeiros a serem descartados são também os que em tempo de vacas gordas contribuíram para o crescimento das economias, graças ao muito baixo custo da sua força de trabalho. Assim, sucedeu sempre com os portugueses emigrados em franças e alemanhas, nos luxemburgos ou brasis. E assim sucede hoje. Sarkozy sabe que parte significativa da opinião pública do seu país é favorável a acções de “despejo”, sobretudo tratando-se de uma minoria étnica frequentemente associada no imaginário das populações a estranhas formas de vida. E assim, na pátria da liberdade, igualdade e fraternidade, em pleno século XXI, no coração de uma União Europeia apregoadora de direitos humanos, expulsam-se comunidades inteiras sem que se ouça o protesto que a situação exige.

Hoje os ciganos, amanhã os cidadãos originários do leste, depois os magrebinos, depois os outros, por esta ou outra ordem qualquer. É preciso descartar, descarta-se. As comunidades portuguesas em diferentes zonas da Europa também já sentem a pressão e a ameaça.

O capitalismo é hábil em servir-se dos homens, usa-os quando precisa, deita-os fora para o desemprego ou para além-fronteiras quando deles não precisa. E se há que escolher, escolhem-se então os diferentes. O racismo cresce e alimenta-se das crises sociais. Em tempos de pouca sorte procura-se o bode expiatório e a crise social e económica é o melhor pasto para lhes atiçar o fogo. O nazismo e o fascismo souberam fazê-lo. Brecht escreveu um poema em que retrata bem a indiferença que tantas vezes se instala quando começa a caça às bruxas. “Primeiro levaram os comunistas,/Mas eu não me importei/Porque não era nada comigo./Em seguida levaram alguns operários,/Mas a mim não me afectou/Porque não sou operário./ Depois prenderam os sindicalistas,/Mas eu não me incomodei/Porque nunca fui sindicalista./Logo a seguir chegou a vez/De alguns padres, mas como/Nunca fui religioso, também não liguei./Agora levaram-me a mim/E quando percebi,/Já era tarde.”

Semeiam a confusão. Inventam culpados para esconder a própria culpa e os verdadeiros responsáveis pelas crises, os que governam o mundo. Uns contra os outros ou indiferentes. Sossegados como a nêspera na versão de Mário Henrique Leiria. É desse modo que se querem os povos. “Uma nêspera/estava na cama/deitada/muito calada/a ver /o que acontecia/Chegou a Velha/e disse/olha uma nêspera/e zás comeu-a./É o que acontece/às nêsperas/que ficam deitadas/caladas/a esperar/ o que acontece.” Acordem-se as nêsperas enquanto é tempo.

2 Comments

  1. Lidia Vieira says:

    É isso Queirós,este processo "sarkozyano"é uma vergonha,está a tornar o sonho de le Pen ,uma realidade,já tivemos quem expulsou,matou,queimou,e está tudo impávido?obrigada pelo teu alerta como sempre muito bem escrito.

  2. Mário Carvalho says:

    O caso da Etnia cigana é muito particular. Claro que o ideal seria ter um Mundo "multicolor", com respeito pelas diferenças étnicas, religiosas, cor de pele, culturais, etc. Mas, para isso, torna-se, pois, necessário que todas as partes se entendam, o que significa, terem a capacidade de integração. Não parece ser essa a vontade de grande parte da Etnia cigana. Existem excelentes casos de sucesso em que tal aconteceu – e ainda bem -, mas, na sua esmagadora maioria, é a própria Etnia que cria dificuldades de integração. Logo, podemos não estar perante um problema de Xenofobia?! Mas, sim, supostamente, de rejeição de quem não quer aceitar as regras de uma convivência saúdavel em sociedade!

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