A Portuguesa

Comemora-se o centenário da República. A 5 de Outubro, o País ouvirá o hino nacional e inaugurará 100 escolas em simultâneo, segundo o programa das comemorações. “É uma homenagem que prestamos a um dos ideais da I República”, referiu o ministro da Presidência! O governo que festeja o seu regime republicano inaugurando escolas é o mesmo que tem vindo a encerrar milhares de escolas.

Há várias Repúblicas para comemorar. Tal como há várias efemérides do “25 de Abril”. Para uns, uma Revolução que enterrou um regime fascista e instituiu um regime democrático, progressista, consagrado, ainda, na Constituição de 76. Para outros, Abril é “evolução”, o que no seu léxico peculiar significa apenas retrocesso. Com o 5 de Outubro de 1910, o fenómeno é semelhante. Há quem veja na República o que quer ver, à luz do modelo de sociedade que defende. Esse é o discurso oficial. Com a confusão e ignorância que grassam quanto à nossa história, não será de estranhar que se creia que os heróis da República, Pais da Pátria, sejam Mário Soares, Manuel Alegre ou Sócrates!

A República é muito mais do que o que querem comemorar. A República pôs fim a um regime, a Monarquia, que na essência não é democrático. Pode lá ser democrático ter-se como chefe do Estado um filho de um pai a quem se chama rei. A República trouxe importantes conquistas sociais, na educação, como sem vergonha refere o ministro, em direitos dos trabalhadores, na laicização do Estado e da sociedade, só para referir alguns.

Não tardará que, a reboque das comemorações, se voltem a pôr em causa os próprios símbolos nacionais, como há alguns anos. Alguns defenderam então a alteração do Hino Nacional. Argumentavam que a “A Portuguesa” era belicista e portando desadequada ao espírito de Paz e de Cooperação da Europa. Sobre o espírito europeu nem vale a pena perder tempo, a história dos Balcãs, a Cimeira dos Açores falam por ele. Já quanto ao espírito belicista do hino pátrio dir-se-ia que, por exemplo, António Barreto desconhece a nossa história. E não é o caso. O nosso hino é um hino anti-imperialista. E é isso que dói a alguns. Quando no final do século XIX, a maior potência da época, a Inglaterra da Rainha Vitória, impôs o Ultimato ao governo português, ameaçando-o com a guerra se persistisse no sonho de concretizar o Mapa Cor-de-Rosa, uma grande colónia do Índico ao Atlântico, o governo monárquico resignou-se e os republicanos aproveitaram tal facto para combater o rei e o regime. Nos teatros e ruas entoava-se uma canção anti-britânica. “A Portuguesa” era mesmo entoada com outra letra, cantando-se “contra os bretões, marchar! Marchar!”. No final do século os portugueses revoltavam-se contra os senhores do mundo, os mesmos que no início do século nos haviam dominado. Esta característica anti-imperialista é uma marca de soberania de que só nos podemos orgulhar, sobretudo num tempo em que a soberania nacional está doente. Em vésperas de cimeira da NATO que viva “A Portuguesa”!

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