Uma estranha música

Anda no ar uma estranha mistificação do real. Esta passou recentemente por um teste de “stress” ao sistema bancário europeu como se fosse possível afiná-lo. Tratou-se apenas de uma operação de cosmética. Mas, fizeram com que se parecessem algo com “as guitarradas coimbrãs, (que) não são mais que os sentimentos do nosso povo campesino, aperfeiçoados por inteligências mais cultivadas pelo estudo e apreciação do belo.” De facto, bem longe de ter a pureza de sentimentos de um povo que vive no meio da natureza e aprecia nela o nascer, o viver e a época de colher os frutos maturados pelo sol e regados pela água, valorizando o gosto natural que define o belo, a banca vive de quimeras e quer valorizar tudo de forma rápida, que nunca é real.

Confiados em que o povo não tenha já os sentimentos que nascem da observação dos processos produtivos reais e que aperfeiçoou pela inteligência e estudo, e já não se interesse pelo belo, a banca tenta recriar uma confiança que há muito já não tem. Tem demasiados podres para esconder e esconde-os. Encenou por isso uns testes em que todos os bancos passam, menos uns bancos menores, mas, isso não basta porque as agências de rating lhes vão dando outras notas, como sabemos. E não vão alterá-las. Para nos acalmar a imprensa económica portuguesa vai dizendo umas coisas. Não tem o cuidado de seguir a argumentação sólida do The Economist de 17 de Julho, que analisou os problemas da banca central com uma profundidade bem menos palavrosa e bem mais séria. Esta revista acrescenta até críticas rigorosas a grandes bancos americanos e fala da necessidade de medidas legislativas que corrijam erros frequentes. Avisadamente diz-nos que os testes de stress foram caóticos e que neles a consistência e a credibilidade foram sacrificadas. Mostra como é pesado o fardo dos bancos centrais, tornando pouco eficaz a política monetária e obrigando os governos a calibrar melhor os planos de austeridade. É o que não parece estar nos horizontes da nossa obcecada governação. Nem sequer os jornais falam da reforma em curso da regulação financeira nos Estados Unidos e liderada por Obama com base nos estudos de Barney Frank e Christopher Dodd. O Presidente americano afirma por isso que “Graças à reforma financeira, o povo americano não vai ter de pagar a conta pelos erros de Wall Street” (in http://economico.sapo.pt/noticias/nova-regulacao-faz-tremer-wall-street_90336.html, acesso em 23 de Julho de 2010). Mas, o povo português já está a pagar os erros da banca, mostrando como o nosso problema não é Constituição.

Falta-nos uma política que nos respeite como povo da Europa e, em particular, que não agrida os sentimentos do nosso povo e o seu direito a um futuro digno e tanto quanto possível próspero.

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