Deolindo

Se pensam que é uma gralha que “caiu” no título da crónica, estão enganados(as). Apesar dos Deolinda serem o grupo musical revelação da moda e não haver ninguém que não conheça (e goste) pelo menos de uma das suas canções excelentemente interpretadas por Ana Bacalhau, quero mesmo escrever sobre Deolindo, em concreto do Dr. Deolindo Pessoa. Ah! Esse…Dizem todos os que trabalham no Hospital Pediátrico… (a propósito, parece que sempre há uma data para as novas, modernas e adequadas instalações começarem a servir os fins para o que foram construídas e que no final do ano já tudo estará a funcionar nos novos edifícios…)

Mas voltando ao Dr. Deolindo Pessoa, médico ortopedista pediátrico, cuja disponibilidade e entrega profissional, todos os que com ele trabalharam podem testemunhar, aliás no seguimento da linha de conduta da Escola de Pediatria de Coimbra, seriam várias as situações a merecerem relato. Mas também não é nesse registo que quero continuar…Quero falar do Homem do Teatro.

Os que são do concelho de Montemor-o-Velho e conhecem a importância do teatro na região do Baixo Mondego, sabem bem como brilham os olhos do Dr. Deolindo quando o tema é Teatro. Vão longe a fundação do CITEC (Centro de Iniciação Teatral Esther de Carvalho) e as primeiras edições do CITEMOR (sim, o mais antigo e regular festival de teatro nacional, cuja 32ª edição está a começar quando escrevo esta crónica e, que, como sempre, recomendo, muito especialmente as produções específicas para os espaços, sempre novos, do Festival), onde o seu empenhamento foi decisivo. Também as suas performances como actor, actor/encenador, encenador são de há muito conhecidas e admiradas. A que quero hoje especialmente destacar é bem mais do que isso. De facto, o espectáculo Peregrinações, foi, indiscutivelmente, uma forma sublime de comemorar os 500 (?) anos do nascimento de um dos grandes do concelho de Montemor-o-Velho: Fernão Mendes Pinto.

Só o conhecimento profundo da cultura local e dos seus recursos poderia gizar uma produção tão bem conseguida. Conjugar a “teatralidade” da Procissão dos Passos quaresmais com o percurso de vida de Fernão Mendes Pinto, conforme nos é relatado no best-seller que é a “Peregrinação”, seja nos seus momentos religiosos ou de guerra, tendo como protagonistas actores amadores, não é para qualquer um…

Mais, conseguir que no elenco de actores fosse, efectivamente e não de slogan, incluída a fórmula “todos diferentes todos iguais” não deixou de sensibilizar os mais atentos. Não, não estou a falar dos diferentes tons de pele que interpretaram o espectáculo… Estou a falar de dois actores principais: O Fernão Mendes Pinto jovem do I Quadro e o Luis de Camões do Quadro VI. Deste último conheço bem a sua dedicação à causa do Teatro há uns bons pares de anos e, apesar de ser a primeira vez que o vi representar, não me surpreendeu. Sempre lhe reconheci capacidades inatas capazes para fazer de tudo numa peça de teatro…

Quanto ao primeiro, mais jovem, e só me tendo cruzado agora com ele como actor, o meu conhecimento, ainda que superficial, dos seus progenitores, não me deixa margem para dúvidas: parabéns…

Um senão apenas. Como é que numa produção destas não se dá no final o destaque individual aos grupos de teatros, e não só, que participaram na produção? Quem veio de fora do concelho não acreditou que os actores eram todos amadores. Digo-o porque tive que o repetir uma série de vezes para alguns dos espectadores…

Mas Deolindo nada, nem ninguém, te pode ocultar o mérito. Vale a pena a cultura em Montemor-o-Velho. Que a produção se repita, em Montemor, Almada, Tenagashima ou outro palco qualquer não convencional, é o desejo dos que participaram, dos que assistiram, dos que apoiaram e, sobretudo, de Fernão Mendes Pinto e de todos os que não viram as “Peregrinações”…

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