Coimbra

Ando sempre atento ao que dizem e ao que fazem a Coimbra. Na última semana li dois artigos interessantes sobre o mesmo tema: “Porque Coimbra perdeu peso?”. Durante séculos foi, praticamente, a única cidade que produzia as elites intelectuais e académicas e, por esse motivo, dominava e regia todo o império, não propriamente através dos naturais da cidade, mas, sobretudo, através dos que passavam pela universidade. O ensino, a cultura, a ciência e a técnica democratizaram-se e espalharam-se por todo o território. Ainda bem. Agora, ouvem-se queixas de que não há quase ninguém a nível do governo e das mais altas instâncias decisórias, como se fosse absolutamente necessário ter alguém da nossa terrinha nesses cargos, esperando, provincianamente, algumas benesses ocasionais. É típico deste país. Para se obter o que quer que seja, nada melhor do que colocar um patrício nesses lugares, um favorzinho para a construção de um parque infantil, um novo centro de saúde, abrir uma nova estrada, transferir certos serviços da cidade vizinha, roubando-lhe alguma importância, para ser, por sua vez, também, importante, no fundo uma espécie de nepotismo territorial, porque são dos “nossos” e se não forem os “nossos” quem é que nos acode?

Coimbra pode “cheirar a mofo”, por culpa própria, mas também devido a uma certa “raiva” frequentemente demonstrada a vários níveis. Pessoalmente, tenho tido ocasião de ouvir comentários pouco abonatórios e preconceituosos sobre a cidade, vindos, inesperadamente, de pessoas muito respeitáveis. Comentários sobranceiros, cínicos e fortemente negativos revelando uma animosidade que não dá mostras de abrandar.

Um desses episódios ocorreu há alguns anos, no palácio das Laranjeiras, numa reunião de trabalho de deputados ligados à área da educação com o ministro. Às tantas, o ministro, para justificar uma nova proposta de lei relacionada com o ensino superior, deu exemplos do que estava mal, apontando frequentemente a Universidade de Coimbra como exemplo. Um, dois, três, quatro comentários, não sei quantos, já não me lembro, mas foram mais do que suficientes para que um colega de bancada, bastante incomodado com os apartes, licenciado e amante de Coimbra, chamar a atenção do ministro dizendo-lhe: – Oh senhor ministro, tenha cuidado com o que diz, olhe que está aqui um deputado que é professor da Universidade de Coimbra! O ministro olhou-me, sem demonstrar grande constrangimento, e prosseguiu na sua exposição, evitando as referências preconceituosas. A partir daquele momento, mentalmente, deixei de o tratar por ministro e passei a designá-lo por “gajo”, concluindo que um gajo qualquer pode chegar a ministro, mesmo sendo professor universitário. Na altura do debate, fui incumbido de fazer o discurso da minha bancada. Recordo que tinha algumas reservas relativamente a uma ou duas das propostas do diploma. Subi ao púlpito. Comecei a falar por cima do ministro que, comodamente sentado na galeria dos membros do governo, deveria estar a ouvir a minha intervenção. Ao fim de algum tempo enfiei-lhe dois ferros curtos, que devem ter sido suficientemente dolorosos, porque consegui captar a atenção de grande parte dos deputados, os quais, como é sabido, são periodicamente acometidos do “distúrbio de deficit de atenção com hiperatividade”. Fi-lo sem intenção, era um caloiro, mas, confesso, soube-me bem!

O país é que “cheira a mofo”, e como é desagradável o melhor é empurrá-lo para Coimbra. É um hábito que já se instalou, empurrar o lixo para Coimbra ou conotá-la como tal. E não é de agora. No princípio do século XX, um dos mais ilustres cientistas portugueses, Ricardo Jorge, disse “cobras e lagartos” sobre a Faculdade de Medicina de Coimbra. Na altura, considerou que três escolas médicas eram demais! e como o dinheiro era pouco, o grande higienista não esteve com meias medidas propondo: “É que uma dessas escolas, a faculdade coimbrã, vegeta em condições tão anómalas, que a sua conservação constitui doravante uma monstruosidade”. “Situada no mesquinho burgo de Coimbra…” para preconizar mais à frente o fim da Faculdade de Medicina de Coimbra no “ventre das escolas médico-cirúrgicas de Lisboa e Porto”, afirmando mesmo: “mas desgraçarem ali uma escola de medicina, isso é um crime administrativo que lesa a par a ciência e os interesses pátrios”. Pois é! A vontade de comer Coimbra é uma realidade, mas não vai ser fácil mastigá-la, quanto mais engoli-la, nem com a ajuda de uma varinha mágica…

2 Comments

  1. Humberto Rocha says:

    Sr. Professor, concordo em absoluto com a sua teoria do cheiro a mofo. Particularmente concordo sobre a sua teoria sobre os Ministros. Quem sabe se esse Ministro nao estara em breve de volta ao Governo com outra pasta? Os anos gratificantes em que trabalhei em Coimbra deixaram-me muita simpatia pelas pessoas. Hoje do outro lado do Mundo recorro a Net e a RTP Internacional para matar as saudades.

  2. Antonio José Santos says:

    Reconheço que existe em Coimbra uma grande preocupação, por parte dos politicos, na perca de instituições e seus cargos inerentes. Mais uma vez falamos em politicos e universidade e o restante, o comércio, a industria e já agora o turismo. Não vejo ninguém preocupado.
    Como disse um amigo, no dia em que o meu pai for politico ou presidente de um clube de futebol deixo de acreditar nele.
    Por tudo isto não se preocupem muito com os lugares na assembleia da republica, Sr. Professor, com grande respeito, diremos aos nossos politicos da nossa cidade que se dirijam para Cantanhede e tirem conclusões de como podem ajudar o povo de Coimbra.

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