Agora, o povo

Agosto tem destas coisas numa cidade tão especial como Coimbra. Desertifica-a, ou quase. Estudantes de férias, escolas fechadas e é o suficiente para se sentir a diferença. Não que o povo da cidade tenha partido em massa à procura de um “resort”. Isso não! O “Pine Cliffs” do Algarve – onde Sócrates está a banhos – não é para todos. Mas sempre há a Figueira já aqui ao lado, e Tocha ou Mira não muito distantes. A cidade está quase deserta. “Quase deserta” é expressão que equivale a dizer que há quem fique em casa, faça sol ou faça chuva, assim haja casa onde ficar, condição que em tempo de crise se torna cada vez mais difícil de garantir. Que o digam os mais de 500 habitantes do concelho que gostariam de ter uma casa decente onde morar. Que o digam as mil e oitocentas famílias que sobrevivem com o Rendimento Social de Inserção.

Disse-me numa destas tardes de calor a dona Aida. Empurrava o carrinho de bebé e parou a desabafar comigo, ia chorando enquanto descrevia o seu desespero, já cedendo o cuidado da bebé à filha mais velha, enquanto os outros três brincavam no passeio, indiferentes às misérias, pelo menos naquela hora, que às horas das refeições outro galo cantará, por falta de galo ou do que quer que o substitua. Chora a dona Aida. Que os malvados da segurança social ou do governo ou lá quem eram lhe tinham tirado mais de 100 euros de subsídio. Como ia agora viver com pouco mais de quatrocentos euros? Com cinco filhos e um marido doente! Se achava bem que escrevesse ao Sócrates como alguém a aconselhara. E logo imaginei o engenheiro a pousar o livro de Gore Vidal que a imprensa diz andar a ler, para abrir a carta da dona Aida. “Senhor Primeiro-Ministro. Excelência. Tenho cinco filhos, um marido doente, não tenho emprego. Recebia pouco mais de 500 euros de subsídios, mas agora desde o dia 1 de Agosto alguém decidiu que devia receber menos 100 euros por mês para assim ajudar o meu país a sair da crise. Mas eu tenho fome! E medicamentos por comprar. Os meus filhos berram. Não, não queriam ter férias no “Pine Cliffs”. Nem queriam ter férias… Querem comer! Tenha pena de mim, Excelência!”. E sua Excelência terá! Largará a carta com remetente de um bairro pobre de Coimbra, alguns erros ortográficos sempre normais em quem passou pela escola a correr, coisa que entenderá, estou certo. Depois voltará a abrir o livro de Gore Vidal e a reflectir sobre a esquerda moderna, à beira da piscina, banhado pelo sol do Algarve, feliz, longe de tudo. O grito desesperado de dona Aida incomodou-o – há sempre quem não saiba fazer mais nada, sempre a incomodarem, sempre a protestarem! Nos auriculares por onde ouve música, a Antena 1 em dia de aniversário seleccionou música de qualidade. E está-se bem! Maldita mulher a estragar-lhe o sossego. Chega-lhe um novo som. Outra vez! “Sei que está em festa, pá/ Fico contente/ E enquanto estou ausente/Guarda um cravo para mim/Eu queria estar na festa, pá/Com a tua gente/E colher pessoalmente/Uma flor do teu jardim/Sei também que é preciso, pá/Navegar, Navegar/lá faz primavera, pá/Cá estou doente…”. Já cá faltava este!

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