A caminho da casa cor-de-rosa

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Cady dá um último jeito à pintura dos lábios. No quarto ao lado, Évina esforça-se por esticar o cabelo. Na residência feminina do Instituto Politécnico de Coimbra (IPC), ali em Bencanta, o amontoado de sacos e caixas denuncia as mudanças iminentes. Falta pouco para as duas estudantes africanas se passarem para o outro lado da quinta da Escola Agrícola, onde uma das “residências do bosque” vai ser o seu novo acolhimento, a cargo dos Serviços de Acção Social do IPC.

Cady é mais alta, mais velha e mais desenvolta. Veio de São Tomé e Príncipe estudar Gestão, no Instituto Superior de Contabilidade e Administração. No Natal de 2006, engravidou. O namorado, cabo-verdiano, é também um estudante deslocado e ex-aluno do IPC, actualmente a estagiar no Porto. Agora, com um pimpolho mais do que irrequieto, Cady prepara–se para atacar o último ano do curso de forma mais tranquila e confiante.

Évina é um caso bem diferente. Tímida, quase assustada, não quer expor o rosto, muito menos o seu pequenino rebento – uma menina –, nascida há apenas oito meses. Também não fala do pai da criança, um estudante nascido em Cabo Verde, tal como a jovem aluna do 1.º ano de Engenharia Ambiental, na Escola Superior Agrária.

Para as duas mães solteiras, o que lhes resta de permanência no IPC vai ser substancialmente diferente. Tudo porque as condições de alojamento vão mudar, já neste início de Agosto. Com elas, seguem também duas outras cabo-verdianas – uma com uma criança já de quatro anos e a outra grávida de sete meses. Se tudo correr bem, vão juntar-se-lhes mais duas estudantes para viver uma experiência incomum, a de madrinhas enquanto estudam… e, quem sabe, pelo resto da vida.

Nova dinâmica

O destino, já se disse, é uma das “residências do bosque”. Trata-se de um conjunto de edifícios, espalhados por uma encosta arborizada, voltada a Poente. A casa cor-de-rosa é uma esbelta construção de três pisos e um pátio acolhedor, onde uma frondosa amoreira dá as boas-vindas a quem chega da estrada. O ambiente exterior destila bucolismo. Lá dentro, porém, não falta o conforto que dá uma residência de oito quartos individuais – a que se somam dois amplos quartos duplos, nas águas furtadas –, com uma cozinha totalmente equipada, televisão por cabo e Internet sem fios de alto desempenho. Isto para não falar de uma lavandaria coberta, no exterior.

Não é de espantar, pois, a tristeza latente, entre os rapazes que, até aqui, ocupavam a casa cor-de-rosa. “É pena”, admite o presidente dos Serviços de Acção Social do Instituto Politécnico de Coimbra (SASIPC). Mas o caminho está traçado. E esta é a primeira medida da nova filosofia do organismo, que passa pela dinamização de um serviço que “não pode confinar–se, apenas, à análise de pedidos e atribuição de bolsas de estudo”, refere Jorge Oliveira.

Para já, os SASIPC vão retomar um projecto que já existiu: a intervenção de proximidade, junto da comunidade estudantil. A ideia é reflectir e trocar experiências, através de colóquios, workshops, etc. Em pano de fundo, a prevenção (da gravidez indesejada, desde logo, mas também de dependências diversas, como o álcool ou a droga) e a promoção do sucesso escolar e da inserção de alunos deslocados.

Mais proximidade

Para Jorge Oliveira, o segredo desta mudança dinâmica é simples: trabalho de grupo e relocalização dos quadros dos SASIPC, nos períodos de menor “aperto”. Em concreto, as duas psicólogas e as cinco assistentes sociais vão passar a ter “a seu cargo” uma ou mais unidades orgânicas.

Assim, no que respeita às psicólogas, Helena Moura mantém o trabalho na clínica do IPC, acompanhando mais de perto as escolas da margem esquerda (ESAC, ESTeSC e ISCAC). Já Catarina Neves, até agora afecta à ESEC, passa também a trabalhar com os alunos do ISEC.

Quanto às assistentes sociais, a distribuição também já está feita: Sandra Travassos (ESTeSC), Sofia Braga da Cruz (ESEC), Maria João Costa (ISCAC), Patrícia Almeida (ISEC) e Marta Correia (ESAC e, uma vez por semana, ESTGOH, em Oliveira do Hospital).

Mas Jorge Oliveira quer ir mais longe. Quer, por exemplo, envolver as associações de estudantes, num ambicioso programa de voluntariado solidário. E quer também integrar a Rede Social de Coimbra. Para tal, conta já com o apoio do Centro Paroquial de S. José. “Tivemos um caso complicado, com um aluno, e foi o Centro que ajudou a resolvê-lo”, conta o administrador dos serviços sociais.

One Comment

  1. O problema é alunos Portugueses não terem direito a subsidio, pelo menos para pagar as propinas, enquanto outros tem tudo de mão beijada, independentemente do comportamento que nem sempre é tido em conta. Isto para falar de uma forma muito soft.

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