O General de Abril

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A história é feita pelos povos. Na história de um povo há momentos decisivos para a sua afirmação colectiva, para o reforço da sua identidade e soberania, para a consolidação da sua independência, para a sua libertação e progresso.

Fernão Lopes foi um mestre exímio no relatar da gesta da arraia-miúda que se revoltou contra os senhores nesses idos do final de trezentos. Na revolução de 1383/85, o papel principal coube ao povo. Como em 1640, 1820 ou 1910.

Nos momentos maiores da história, a defesa da soberania nacional foi assumida pelo povo em revolta contra o domínio de impérios estrangeiros, o espanhol, depois o britânico, que no século dezanove submeteu Portugal à condição de colónia.

A 25 de Abril de 1974 jovens militares saíram dos quartéis e derrubaram um regime fascista que apodrecia lentamente como as pernas da cadeira que antes derrubara o ditador.

Entre uma guerra sem fim que massacrou gerações, a miséria condenava ao salto para franças e alemanhas, enquanto se partilhava uma sardinha por dois ou três num naco de broa, se tragava um caldo de engana-fome e um copo de vinho, que para muitos era remédio-de-esquecer misérias, num país onde beber vinho era dar de comer a um milhão de portugueses, assim diziam cartazes que milhões não liam, pois o analfabetismo era mais endémico que a tuberculose.

À espreita, estavam a Pide e os bufos, na rua, no café, na universidade ou na fábrica. Os salários ainda nem eram mínimos, que a esses os trouxe Abril. As reformas e pensões eram excepções para poucos e férias era palavra de sonho que só alguns conheciam.

Reinava o medo de escrever e da censura, o medo de falar e da delação, o medo até de pensar, não fosse o pensamento ser escutado. E havia a legião e a mocidade.

E havia a moral e os bons costumes que ostracizavam divorciados e amancebados – não confundir com senhores com amantes –, filhos de pai incógnito, os filhos da outra, e proibia as mulheres de votar, de usar calças como os homens e autorizava os maridos a ler-lhes a correspondência ou a conceder-lhes o direito a trabalhar ou a sová-las quando preciso, que entre marido e mulher não se meta a colher.

E a falsa moral era ainda a dos prostíbulos e desse “ballet rose” que foi a casa pia da época. Morria-se no Leste e no Maiombe, nas bolanhas da Guiné. Uns voltavam em caixas de pinho, outros regressavam, mas a perna, o braço ou os olhos não.

O país era cinzento de chuva e medo, de rancor e ódio. Mas nas prisões resistia-se, clandestinamente imprimia-se o “avante”, organizava-se a luta que nunca cessou apesar dos reprimidos, espancados, torturados e mortos. E um povo imenso esperava pelo futuro.

Depois, foi a madrugada e aquele dia “inicial, inteiro e limpo”. E lindo. E o povo saiu à rua e fez da revolta dos soldados a sua revolução. Era agora o general. Seguiu-se Maio e o futuro estava ali.

E hoje, de novo, entre Abril e Maio, o Abril ainda por fazer. Que se fará.

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