Tribuna: Dos palhaços às palhaçadas

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Adoro os textos satíricos: todos eles são percorridos por um pacifismo de princípio que explica por que razão, ao serem interpretados – quer se trate na vertente da expressão máxima da liberdade de expressão, quer na vertente da retratação do estado de “saúde” de uma sociedade – constitui a principal razão de ser de uma sociedade liberal.
Mário Crespo utilizou esse género literário em artigos de opinião no Jornal de Notícias. Excelente. E, no entanto, de uma forma geral os actores (figuras públicas) não encaram sequer estudar, com serenidade, as circunstâncias anteriores explicativas dos conteúdos tratados. Palhaços.
Outra coisa, bem diferente, é o Mário Crespo, profissional com carteira de jornalista, talvez com um pouco de ingenuidade no estender mecanicamente do «campo notícia» -PM falou mal dele (ferindo princípios de idiossincrasia (legitima) – extrapolando, prioritariamente, a partir do «campo jornalístico» para o opinativo, a acusação de ter sido censurado. Não, não considero que o tenha sido. Cometeu uma palhaçada.
Por um lado, não me parece que o espaço político de um regime democrático, baseado num Estado de Direito, se tenha transformado – como diz Manuela Moura Guedes, José Eduardo Moniz (que pena Mário Crespo alinhar na mesma extensão de voz) – numa espécie de mercado em cujo seio “o empresário político José Sócrates” (controlo dos media, controlo dos jornalistas) entre em concorrência com empresários da comunicação social para ocupar posições de poder informativo.
Por outro lado, a teoria de Manuela Moura Guedes/ José Eduardo Moniz – a dos fins últimos do Governo: controlo da liberdade de imprensa, liberdade de expressão, silenciamento jornalístico – não é inocente; logo, não poderá deixar de se tratar, nos factos, de revelações aplicadas de modo imperativo, arrogando–se um monopólio de definição e interpretações das finalidades dos seus trabalhos jornalísticos. Pretensão infeliz. Palhaçada.
Pois bem. Na verdade, convém distinguir as quatro funções na linguagem: expressiva, fáctica, e, por excelência no uso do jornalismo, descritiva e argumentativa; não ignoro, em primeiro lugar, que é na função descritiva e argumentativa – aos casos que acima mencionei adiciono o mais recente do semanário SOL – que se verificam os paradoxos da liberdade e sei, por exemplo, que textos editados sem entraves podem degradar as condições de exercício das liberdades individuais (privacidade) ou colectivas (segredo de justiça, por exemplo). Partilho em parte com Marx e José Sócrates, na qualidade de Primeiro Ministro a ideia segundo a qual a liberdade exercida de modo ilimitado tem necessariamente um carácter autodestruidor que exige, por conseguinte, uma intervenção autocorrectora do Estado, defende Marx, uma intervenção de autoconsciência de quem edita – defendo eu e, pelo que tenho ouvido, o Primeiro Ministro. A liberdade absoluta da imprensa ou da comunicação pode, assim, transformar–se no seu inverso e dar origem a um fenómeno de aversão, descredibilização, pelo uso de manipulação informativa em que o jogo espontâneo das relações mercantis (Moura Guedes rezingava que jamais seria despedida da TVI devido às audiências que conseguia) agrave para lá do tolerável a boa–fé dos consumidores.
É, portanto, vão, esperar obter um consenso em torno dos fins últimos do poder político (Governo) e do poder informativo (contra–poder); não existe, portanto, um processo argumentativo e, ainda menos, um critério seguro que permitam fazer uma partilha pertinente entre duas concepções diferentes da origem ou da natureza destes dois poderes numa sociedade livre. Também aí, convirá ter presente o adágio socrático: a nossa ignorância é ilimitada mas, felizmente, a nossa capacidade de eliminar o erro também o é. O pecado mais grave do essencial deste conflito continua a ser, por conseguinte, essa confusão que mantém deliberadamente entre as questões de origem e as questões de validade ou de verdade argumentos precários e revogáveis.

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